Lolita foi lançado em 1955 e apresenta-se como uma narrativa desprovida de moralismo que cativa desde o começo pela sua qualidade artística. Após mais de meio século da sua publicação, o livro de Vladimir Nabokov ainda é alvo de intermináveis debates pelo seu tema controverso e narrador não confiável.

A obra, considerada um clássico da literatura russa e internacional, retrata a história de um intelectual francês de meia-idade, de pseudónimo Humbert. Humbert é completamente obcecado com Dolores Haze, uma menina de 12 anos, a quem chama Lolita.

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Humbert, o narrador, é um homem de aparência elegante e extremamente inteligente e persuasivo, que recorre à sua habilidade linguística para seduzir o leitor. O livro é-nos apresentado em tom de memórias, onde o francês se sustenta nos traumas de infância para justificar os seus atos intoleráveis e apelar à compaixão do leitor com o qual tenta, desde cedo, criar uma afinidade. Embora tenha total consciência dos seus atributos, também tem consciência do seu estado mental degradado, e faz questão de o relembrar constantemente.

Nada em Lolita é uma coincidência e todos os pontos estão interligados. O título revela, desde logo, como a obra foi concebida sob a única perspetiva manipulada de Humbert. É provável que Dolores, como ele a relata, nunca tenha existido. Em contrapartida, o narrador descreve-nos Lolita, uma fantasia da menina que vive apenas no seu pensamento deturbado.

Há um conflito entre moralidade e estética da prosa ao longo de todo o livro. O tema tão denso e grotesco é camuflado com a beleza da escrita de Nabokov. O autor russo brinca com as palavras de tal forma que cria uma espécie de êxtase estético no leitor. A premeditação da escolha de todos os termos usados é tão delicada e subtil que esconde o significado de certas ações desgostosas do narrador. Além disso, a narrativa possui uma riqueza vocabular surreal,  que nos prende cada vez mais à medida que a história avança.

Humbert é uma das personagens com mais dimensão psicológica com a qual já me deparei. A sua mente encontra-se numa guerra moral constante, à qual nós, leitores, somos obrigados a testemunhar.  Vive com medo de ser descoberto, mas recusa-se a contrariar os seus impulsos. É uma personagem completamente centrada em si e, ainda assim, atenta às reações dos que o rodeiam. Lolita, por sua vez, não é pintada como uma vítima, mas como a culpada de todo o “emaranhado de espinhos”. São breves os momentos em que conseguimos ver uma ponta da real personalidade de Dolores: uma menina vulnerável, assustada e sem mais ninguém a quem se entregar se não a esta figura masculina que promete protegê-la.

Lolita tem um tema forte abordado de uma forma genial. Nabokov desafia o leitor ao explorar um dos piores crimes da humanidade sob o único ponto de vista de um criminoso sedutor e manipulador. Misturam-se sentimentos de repugnância e fascínio. Sentimo-nos culpados por saber o que se passa na mente de Humbert. Porém, sentimo-nos  fascinados pela forma como é descrita. Mergulhamos na beleza literária enquanto sufocamos na sensação claustrofóbica da sua subjetividade. Ficamos toda a leitura a questionar se o que ele diz é real ou uma mera fantasia fruto dos seus distúrbios mentais.

Concluindo, Lolita é muito mais do que aparenta ser. Apesar de incomodar o leitor, não visa trazer uma história romantizada da pedofilia, como muitos alegam. Em vez disso, prova-nos como o ser humano é facilmente persuadido e prisioneiro da sua insanidade.