No primeiro dia de maio de 2001, as Destiny’s Child lançavam Survivor, o terceiro álbum de estúdio. Apesar das conturbadas dinâmicas de grupo, Beyoncé Knowles, Kelly Rowland e Michelle Williams colocaram o drama de lado e focaram-se no empoderamento das mulheres, com mensagens que são hoje tão edificantes e relevantes quanto eram há duas décadas.
Em 1990, com apenas nove anos de idade, Beyoncé juntou-se a algumas amigas igualmente apaixonadas pelas artes de espetáculo para criar a girls band Destiny’s Child (na altura chamada de Girl’s Tyme). Em 1992, o grupo teve uma curta participação no Star Search, um famoso programa de TV da década de 90, e três anos depois viram um contrato com uma gravadora ser cancelado, antes mesmo de lançarem um álbum.
Foi em 1997, depois de muitos anos de trabalho e preparação, que a sorte do grupo virou, garantindo-lhes um contrato com a Columbia Records e um álbum de estreia autointitulado, do qual resultou o single de sucesso “No, No, No Pt. 2”. O álbum de estúdio seguinte, The Writing’s On The Wall (1999), conquistou-lhes dois Grammys e mais de oito milhões de vendas nos Estados Unidos da América.
Da primeira à última faixa, Survivor é uma carta de amor dirigida a todas as mulheres. O single “Independent Women Pt. 1” celebra as mulheres que lutam e trabalham pela sua independência financeira. No refrão, Kelly Rowland e Farah Franklin (ex-membro) cantam “The shoes on my feet, I bought it/ The clothes I’m wearing, I bought it/ The rock I’m rocking, I bought it/ ‘Cause I depend on me if I want it.”
Esta primeira faixa do álbum revela de imediato qual é o principal objetivo: empoderar as mulheres no sentido de se tornarem mais confiantes quanto à sua independência e feminilidade. “Independent Women Pt. 1” faz parte da banda sonora do filme “Anjos de Charlie” (2000) e além de fazer referência às atrizes na introdução do tema, a girls band incluiu cenas do filme no videoclipe.
Mantendo intransigentemente o tema do álbum, “Bootylicious” é uma celebração dos corpos femininos, em especial daqueles que desafiam os estereótipos sociais de beleza. Atualmente, é comum vermos esta temática ser abordada por vários artistas, mas eram muito poucos os que, nos anos 2000, incluíam mulheres e homens com curvas, coxas largas e abdómens não definidos nos videoclipes. A girls band Destiny’s Child consagrou-se, assim, numa das primeiras e maiores impulsionadoras do feminismo no início do século XXI.
À semelhança das melhores canções de James Brown, em “Bootylicious” todos os instrumentos parecem funcionar como percussão. A métrica da canção cria uma sensação constante de construção e fascínio sensual. O tema conta, ainda, com um sample de “Edge of Seventeen”, de Stevie Nicks. O impacto do tema foi tanto que o Oxford English Dictionary passou a incluir a palavra “bootylicious”.
O álbum prossegue na discussão da autonomia sexual, em “Nasty Girl”. Numa primeira análise à lírica deste single poderá parecer-nos que Beyoncé, Kelly e Michelle estão a censurar mulheres por aquilo que vestem. Na verdade, as artistas recorrem a comentários irónicos e sarcásticos, criticando a forma cruel e superficial como as mulheres são criticadas. “Nasty put some clothes on, I told ya/ Don’t walk out your house without no clothes on, I told ya/ (…) These men don’t want no hot female that’s been around the block female, you nasty girl.”
Além de consolidar as Destiny’s Child como o grupo que mudou o panorama do Pop e do R&B, Survivor trouxe à tona as habilidades de composição e produção da vocalista Beyoncé. Quase todas as músicas foram produzidas por Knowles, estabelecendo-a como uma figura-chave dentro do grupo e, mais amplamente, da indústria musical. As melodias emocionantes e o ouvido atento de Beyoncé contribuíram em grande parte para o sucesso do álbum.
Um dos temas deste álbum viria, ainda, a tornar-se muito especial e importante para a construção da carreira a solo da artista. A balada “Dangerously In Love” foi apresentada pela primeira vez ao público em 2001, enquanto parte integrante de Survivor. Dois anos depois, a mesma faixa não só foi incluída, como deu nome ao primeiro álbum a solo de Beyoncé. A extensão vocal, aliada ao arranjo sofisticado, conquistou-lhe o Grammy para Melhor Performance Feminina de R&B, em 2004.
Quando pensamos na faixa-título “Survivor”, surgem nas nossas mentes imagens de Beyoncé, Kelly Rowland e Michelle Williams investidas na floresta, como símbolo de força. A verdade é que “Survivor” possui uma outra mensagem: é, em geral, uma ode ao poder inerente das mulheres e, em particular, uma chamada de atenção para a resiliência da girls band.
Em 2000, um ano antes do lançamento do álbum, as artistas LaTavia Robertson e LeToya Luckett, que até à época integravam o grupo, foram substituídas por Michelle Williams e Farrah Franklin. Farrah deixou o grupo seis meses depois devido a problemas de saúde. Esta mudança na constituição do grupo gerou alvoroço entre os média, que insistiam em discutir a natureza tumultuosa do grupo, questionando quem sobreviveria como parte das Destiny’s Child. Com “Survivor“, tornou-se evidente que o legado da girls band seriam hinos de empoderamento feminino, que 20 anos depois continuam a encorajar as mulheres a unirem-se nos desafios e nas conquistas.
Álbum: Survivor
Artista: Destiny’s Child
Editora: Sony Music Entertainment Inc.
Data de lançamento: 1 de maio de 2001



