Várias investigadoras debateram o tema com vista na sua experiência pessoal.

A terceira edição das Jornadas da Ciência decorreu de 8 a 10 de abril de forma online. O primeiro dia contou com uma mesa redonda intitulada “O Papel da Mulher na Ciência”, onde se discutiu os receios e as conquistas das investigadoras convidadas. O debate foi moderado por João Paulo André, professor auxiliar do Departamento de Química da Universidade do Minho.

Clara Sousa Silva é astroquímica quântica no Centro de Astrofísica de Harvard-Smithsonian. “Em pequena olhava para o céu e imaginava o que se passava por lá. Tive a sorte de ter pais que me puderam encorajar neste percurso profissional”, contou a cientista. “Como mulher, e ao subir na hierarquia, fui vendo que cada vez menos há pessoas como eu e é por isso que, apesar de ser cientista a tempo inteiro, dedico uma grande fração do meu trabalho a tentar incluir gente mais diversa em astronomia e ciência”, reiterou. Contrariamente a Clara Sousa Silva, Sandra Paiva, professora no Departamento de Biologia da Escola de Ciências da Universidade do Minho, não teve tanta certeza no que queria fazer. “Gostava de muitas coisas e sofria essa angústia de não saber o que queria”, disse.

Segundo o PORDATA, 1986 foi o ano em que número de mulheres superou o dos homens no ingresso ao ensino superior português. Desde aí, este acontecimento repete-se todos os anos. Ana João Rodrigues, líder de equipa no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) na Escola de Medicina da UMinho, explicou que “apenas 30% das mulheres em Portugal atingem o topo da carreira ou cargos de direção”. “A mulher, mesmo tendo o mesmo nível de estudos que um homem, tem muito maior probabilidade de ser desempregada e de ter um salário inferior. Portanto, ainda existe assimetrias e é preciso reconhecê-las para as combater”, acrescentou. “Muitas vezes uma mulher que se quer fazer ouvir é vista com autoritária, mandona, enquanto que um homem é visto como um líder. Estes estereótipos associados ao género precisam de ser discutidos”, incluiu Ana João Rodrigues.

Paula Sampaio, é doutorada em Ciências Biológicas e mestre em Genética Molecular pela UMinho e admitiu que a carreira de investigação é muito exigente. “Chegamos ao final do nosso doutoramento e temos que fazer determinadas opções na vida. Estes estereótipos existem tanto na cabeça dos homens como na cabeça das mulheres e, nas suas decisões, as mulheres têm sempre isso no seu background”, declarou. A Professora Auxiliar na UMinho decidiu contar uma história de quando se mudou para Braga. “Braga é a cidade dos arcebispos e a igreja católica tem um peso muito grande aqui. Na primeira Páscoa que passei com o meu marido em casa, bateram-me à porta com a cruz e fui eu que fui abrir a porta. Mal abri a porta perguntaram-me onde estava o chefe da família. Esta é a mentalidade que se tinha e se tem muito aqui”, concluiu Paula Sampaio.

Em que medida é que a maternidade interfere com a carreira? Para responder a esta questão, Clara Sousa Silva referiu um estudo referente à quantidade de artigos científicos publicados na altura da maternidade. “Logicamente, o das mulheres desce, mas, surpreendentemente o dos homens sobe. Porquê? É preciso dizer aos homens cientistas que a licença não são férias nem tempo para gastar em artigos científicos. Até os homens fazerem 50% do esforço, eu não sei se alguma coisa vai mudar”, rematou Clara Sousa Silva.

Clara Ferreira é licenciada em Biologia e Geologia, mestre em Biologia Molecular e Celular na Universidade de Coimbra e, possuí um doutoramento na Universidade de Oxford. “No sítio onde trabalho existe uma compreensão da minha situação, que estou quase sempre sozinha com duas crianças”, explicou Clara Ferreira. “A minha ambição é enorme, mas, muitas vezes, as mulheres têm que ser duas vezes aquilo que os homens são, no mínimo, para continuarem a progredir na carreira”, adicionou. “Ter filhos tem impacto, claro. A produtividade não é a mesma. E por isso as redes de apoio são fundamentais”, afirmou Ana João Rodrigues. “Mas não temos que encarar isto como um bicho de sete cabeça. Qualquer pessoa com ambição e perseverança vai conseguir atingir na mesma os seus objetivos”, garantiu a cientista.

Afinal, qual é o papel da mulher na ciência? Clara Sousa Silva defendeu que não deveria haver nenhum papel. “Mas como somos poucas temos que ser excelentes. Eu tenho que ser excelente, se não acusam o meu género de ter falhado. Não fui eu que falhei, foram mulheres que falharam”, confessou a cientista. “Portanto, eu tenho uma responsabilidade injusta de ser perfeita, que detesto e não queria ter”, terminou.