Katherine Zhang, conhecida por Lil Mariko, tem vindo a ficar cada vez mais conhecida, principalmente através de redes sociais como o Tik Tok. Após o lançamento de singles virais como “Don’t Touch” e “Shiny”, a promissora artista musical lançou no mês passado o primeiro self-titled EP. Uma coletânea de trap, metal, hyper-pop, screamo e de absurdismo ao mais alto nível.

Mariko arrasta-nos para um mundo onde não há papos na língua. Esta aborda temas explicitamente sexuais, quase paródicos, pelo álbum inteiro – especialmente na última faixa “Catboys” que… só ouvindo. Apesar de correr apenas 16 minutos de duração, as sete músicas apresentadas trazem uma consistência que eu, honestamente, não estava espera. Normalmente, cantoras desta onda artística lançam o single que lhes traz atenção e uma certa fama, mas quando fazem um projeto de maior escala, este não consegue captar a mesma sensação dos trabalhos anteriores. Contudo, Lil Mariko mantém-se fiel à estética de “menina inocente que te cospe na cara se a olhas de lado”.

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Hi, I’m a Slut” abre os portões que é esta mansão da Playboy, mas ainda mais perversa. A faixa mais longa do EP introduz-nos ao que Lil Mariko representa: uma mulher que assume como parte de si tudo o que é considerado tabu na sociedade machista. Os instrumentais são uma simples batida de trap que ouvimos todos os dias, contudo acompanha decentemente o ritmo mais lento da música.

Don’t Touch” é quando as coisas começam a aquecer. Com a colaboração de Full Tac, a música alterna entre refrões cativantes recheados de synths e gritos de arrancar pulmões. A personagem criada pela artista adota ainda mais a característica de violência espontânea com letras como “If you try to touch me / I swear to god, shitdick / I will take my Louboutins and castrate you”. Viciante e sem vergonha na cara, esta faixa é um dos definitivos highlights do projeto.

100 Dicks” completa a primeira trindade deste circo macabro. Uma crítica à “praga” que muitas mulheres sofrem: receber “dick pics” não solicitadas. Mais uma vez, a estrutura musical e vocal que ouvimos até agora repete-se quase identicamente, com uma maior ênfase no hyper-pop. Apesar do ato de Lil Mariko poder ser considerado irónico ou até “intencionalmente mau”, esta faixa não me consegue captar como as anteriores. O refrão não é tão impactante e consegue ser bastante cansativa.

Mas não é a pior do grupo. Esse prémio vai para “Disgusting”. De longe a mais irritante – num álbum que é suposto ser a personificação desse sentimento. Ouvi uma vez e chegou. Não sei se estou a pedir demais de um álbum destes, mas não consigo sentir o mesmo entusiasmo que presenciei nas anteriores. Antes deste tema vem a “I’m Baby”, que é o perfeito exemplo para a personagem de Lil Mariko: fofinha, mas psicótica. Instrumentalmente, muito mais complexa e criativa que os seus antecessores. Um som mais pesado, com a inclusão de vocais transformados em guturais que servem de palco para os vocais “inocentes” da artista. Explora o lado mais metal do EP ao incluir um breakdown à la deathcore no último terço da faixa, que encaixa macabramente bem com os gritos da artista.

Chegamos ao verdadeiro ponto alto do EP, “Shiny”. Humoroso, vulgar, agressivo, fanfarrão e estranhamente sexual são os adjetivos que melhor descrevem esta obra-prima musical. Quem são os The Beatles ao lado da mulher que diz que cega pilotos de avião com os brilhantes que tem na vagina? Exato, nada. Piadas à parte é uma faixa muito sólida que encapsula ainda mais o puro absurdismo de Lil Mariko. Os versos e o refrão são hilariantes ao mesmo tempo que trazem a agressividade caraterística da artista. A parte spoken-word atribui ainda mais personalidade e esta atitude de “superioridade” transmitida.

Um projeto bastante curto, contudo, nestes casos, é o melhor a fazer. Vindo de alguém que nunca teve experiência musical enquanto lançava os singles pela qual ficou conhecida, Lil Mariko é uma raridade em termos de qualidade, no mundo de artistas normalmente limitados pela personalidade que transmitem. Conseguimos notar alguma fragilidade em certos temas (“100 Dicks” e “Disgusting”) e aí reside o meu maior problema com o álbum, a consistência. Contudo não foram grandes detrimentos para o ambiente geral. Katherine Zhang pega no nojento, vulgar e sexual e duplica isso neste EP, de cabeça e dedo do meio erguidos.