Mar Adentro estreou nas salas de cinema portuguesas no dia 24 de fevereiro de 2005. Cheio de temáticas fortes e baseado numa história real, o filme dá destaque a um assunto que ainda nos dias de hoje causa polémica, a eutanásia. Javier Bardem, Belén Rueda e Lola Dueñas dão vida a um estranho e interessante triângulo amoroso.

A longa-metragem começa por dar a perceber aos espectadores que Ramón Sampedro (Javier Bardem), um ex-marinheiro que ficou tetraplégico num acidente de mergulho, procura uma solução para o seu sofrimento. Para tal, Gené (Clara Segura) pede ajuda a Julia (Belén Rueda) uma amiga sua que exerce advocacia. Ao longo do filme, Ramón e Julia vão lutando contra as leis espanholas e, simultaneamente, vão se tornando muito íntimos. De modo a conseguir a autorização para a sua morte, Ramón torna o seu caso público, dando entrevistas para a televisão, acabando por conseguir o apoio popular. É através desta grande visibilidade que chama a atenção de Rosa (Lola Dueñas), locutora de uma rádio local, trabalhadora numa fábrica e mãe solteira, que mal o vê na televisão o procura e logo se apaixona por ele.

O ex-marinheiro vive em casa do seu irmão mais velho, José (Celso Bugallo), e esposa, Manuela (Mabel Rivera), juntamente com o pai de ambos, Joaquín (Joan Dalmau) e o seu sobrinho Javier Sampedro (Tamar Novas). Durante toda a produção cinematográfica vê-se as limitações de Ramón e também as suas estratégias para as contornar. Não tendo sensibilidade nas mãos é impossível para Ramón escreveR. No entanto, com a boca e um pau de madeira Ramón cria os seus poemas e deixa todos os seus pensamentos fluírem para o papel. O seu sobrinho Javier ajuda-o a corrigir alguns erros simples de pontuação. Todavia, é ele que acaba por ser corrigido pelo seu tio que diz imensas vezes: “Não sei o que vos ensinam na escola!”.

O filme aborda imensas temáticas fortes, tais como: o livre arbítrio, a saúde mental, conflitos familiares, o papel da igreja na justiça, entre outros. Contudo, a eutanásia é o principal foco da obra de cinema espanhola. Tanto é abordada por causa da situação de Ramón como por causa de Julia, que havia sido diagnosticada com uma doença degenerativa hereditária. Para além de ser falada diretamente através das personagens, com a banda sonora e os elementos paisagísticos a longa-metragem dá-nos, também, um olhar mais próximo da vida de Ramón.

Com ângulos estratégicos da câmara conseguimos, de certa forma, ter a visão do ex-marinheiro e entrar nos seus pensamentos. Há inclusive cenas, onde Ramón sonha que voa, em que a câmara nos guia pelos seus sentimentos e desejos. A maior parte destes seus sonhos e pensamentos levavam-no para a praia, o sítio onde perdeu a mobilidade, mas também onde gostaria de estar, se pudesse.

É claro que o debate da eutanásia, muito mais controverso na época em que a história se passou (meados dos anos 90), tinha imensos senãos. Para além dos tribunais não apoiarem a sua escolha, a Igreja opunha-se ainda mais em relação à decisão de Ramón. Para o convencer de que tal decisão era “errada”, um padre tetraplégico vai a sua casa e tenta coagi-lo a desistir desta ideia. Porém, tal como havia referido na sua carta aos juízes uns tempos antes, Ramón disse ao padre que “viver é um direito, não uma obrigação”. A abordagem da igreja, na obra cinematográfica, dá uma visão de conservadorismo e rigidez, servindo como contraponto na história e enredo cinematográfico.

A longa-metragem foi lançada numa época em que o debate pela eutanásia estava aceso devido a um caso que estava a decorrer. A qualidade e atualidade da produção foi tanta que a fez vencer imensos prémios, incluindo o Óscar de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Nos Prémio Goya saiu vitorioso com o Prémio de Melhor Filme, Melhor Ator Principal, Melhor Atriz Principal, Melhor Fotografia, entre outros.

Em conclusão, Mar Adentro é um filme de debate individual e coletivo que permite o aprofundamento dos nossos pensamentos. A banda sonora, as temáticas, a história, as interpretações fantásticas de todo o elenco, as estratégias e ângulos da câmara dão um balanço e equilíbrio enorme à obra. Todos estes aspetos combinados culminam numa produção fantástica e emocionante.