A 1 de abril de 1965, a BBC Radiophonic Workshop transmitiu pela primeira vez The Afterlife, a terceira de quatro construções sonoras da autoria de Delia Derbyshire no âmbito das Inventions for Radio, um programa de rádio dedicado à exploração sónica e à inovação musical. O The Radio Times descreve a peça como “uma tentativa de reconstrução sonora da visão espiritualista da morte e da eternidade (…) concebida como um sonhar a morte”, que contou também com a colaboração de Barry Bernange.

“Numa altura em que o retrato dos indivíduos e das comunidades da classe operária britânica era limitada e muitas vezes clichê”, segundo David Butler, Delia Derbyshire revolucionava a música eletrónica, pavimentando o caminho onde viria a nascer o ambient. Fê-lo não só a partir de um trabalho meticuloso, com o qual gravava centenas de beeps eletrónicos e os ajustava individualmente para depois os transverter para melodia ou basslines, como também através da colagem de múltiplas entrevistas a cidadãos britânicos, privilegiando e dando lugar de fala a pessoas ‘comuns’.

twitter.com

O ambient, por definição, é um género musical fundamentalmente centrado na redescoberta do tom e do timbre, em vez do ritmo ou das estruturas tradicionais. Quer evocar uma paisagem sonora, construir uma atmosfera ou, lá está, criar uma ambiência. The Afterlife surge antes do termo ambient ser cunhado por Brian Eno em meados da década de 70, e leva tudo aquilo em que consiste o movimento a um prestigioso expoente que faz de Delia uma referência até hoje.

O ambient valoriza o silêncio; Delia assume-o como necessidade. Dos interstícios e da ausência de som nasce um espaço em branco para que o ouvinte nele possa imaginar livremente e projetar devaneios interiores. Também conhecido como The Great Adventure, o álbum construiu uma narrativa muito especial a partir de elementos que não eram, pelo menos à primeira vista, propriamente musicais – a spoken word, o silêncio – e que vieram depois dar origem a uma bonita metamorfose na história da música.

Esqueçamos 2021, os computadores e a facilidade exacerbada. Viajemos, então, até aos primórdios da eletrónica. Mais, flutuemos até onde nunca ninguém esteve para depois voltar, numa travessia de 40 minutos dividida em quatro fases. Partimos da identificação do momento presente: onde estamos ou o que estamos. Death is going from shadow into reality: assim irrompe a primeira de várias vozes que tentam definir, de forma mais ou menos abstrata, o conceito de morte. Pouco antes dos dois minutos surge a primeira melodia, enquanto se exalta o fim do corpo físico, a transição para a luz ou o portal para um mais elevado horizonte.

Dizia Delia que estas invenções radiofónicas consistiam em “construir ecrãs de filmes de música de fundo semi-abstrata, contra a qual o ouvinte pode projetar a sua própria imagem de Deus, do Céu, de sonhos, do assunto que é falado pelas vozes no primeiro plano”. Para o conseguir, não podia simplesmente premir uma tecla de um portátil com o Ableton aberto. O processo passava, sim, pela modulação e manipulação analógica de sons gravados. A matéria-prima eram, então, motivos mundanos e do dia-a-dia, meticulosamente desenvolvidos. Talvez também por esta razão, Roy Curtis-Bramwell observou que “a matemática do som era natural para Delia Derbyshire”.

O triunfo deste álbum não se dá apenas pela mestria técnica de Delia. Louvem-se a simplicidade e o minimalismo, sem deixar, não obstante, de admirar a espiritualidade com que Derbyshire traça a órbita desta odisseia, numa reflexão sincera sobre o que vem depois e, acima de tudo, uma indagação ciente do fim e sujeita à fragilidade que dele advém.

Delia serve-se do silêncio como elemento musical que, tal como os ecrãs pretos a meio dos filmes abrem o hiato necessário para respirar, deixa o ouvinte ir à tona depois de mergulhado em esperanças, expectativas, sonhos e projeções sobre algo que não é concreto, palpável ou comprovado. Também autora do genérico de Doctor Who, acolhe a voz humana para, mais do que um veículo de significado e de expressão, a transformar num elemento percussivo, que oscila consoante o medo do desconhecido, a emoção, a expectativa e a incerteza.

E aquilo que foi, na altura, considerado por muitos (e com desdém) “um tom ‘severo’ e ‘deseducado’” por parte das “não-entidades fúteis” entrevistadas, é apenas a fragilidade a vir ao de cima, o ser humano – e sabê-lo. É a admissão do declínio, a rendição ao óbito que sempre parece mostrar-se, por mais incontornável que seja, insubmissa e descontente – uma derrota, até certo ponto. Aquilo que caracterizam como um “tom severo” pelas tiradas incisivas quanto ao fim da vida, ou “deseducado” porque não se mantém estável dentro de um intervalo de tons e decibéis como é de esperar na rádio, não passa de um comportamento extremamente humano que ganhou palco, e ainda bem, na rádio nacional britânica naquela primavera.

It’s just like going to sleep, diz-se, em analogia – ou eufemismo, conforme a preferência do leitor. E sucumbimos para depois transcendermos. A voz ecoa, a luz parece tomar-nos as arestas do corpo através de modulações pertinentes e atentas, para dizer o mínimo, que conjuram o vazio, uma amplitude despida de qualquer substância ou matéria. Everything is wide and broad, all the colors are glowing – e podemos senti-lo. Ouvimos as vozes embaladas por melodias próximas de um coro etéreo, frequências sonoras sinuosas que cantam o fim que só é fim por não sabermos o que se segue.

mixmag.fr

Consuma-se a epopeia: “Death is just a changing”. De um corpo térreo transitamos para o éter. Depois de traduzir o sonho em som em “The Dreams” e confrontar crenças e incredulidades em “Amor Dei: Vision of God”, Delia Derbyshire compôs os degraus da escada até ao céu, num debate filosófico aberto e recetivo entre estranhos sobre o pós-vida. Fê-lo com sensibilidade assombrosa e uma paciência que hoje parece quase perdida.

Delia foi considerada pela revista Wire, em 2001, “uma psicóloga do som, uma analista obsessiva do ritmo, da inflexão, do tom, do pensamento”, a propósito do seu elogio fúnebre. Foi ‘um dos grandes’ na história da música, mas nunca tida como tal. Era nota de rodapé, uma mera de técnica de som nos gabinetes da BBC. Era arquiteta e escultora, ciente do rigor necessário para criar uma fluidez orgânica. E sempre ofuscada por uma indústria de e para homens.