O produtor de música eletrónica Iglooghost tem-se mantido um bocado escondido no mundo da música, mas agora está de volta. O álbum (muito) esperado do britânico, Lein Line Eon, veio para finalmente  oferecer uma continuação do estonteante álbum de 2017. Para além de servir de rutura com o som e tom da editora “Brainfeeder”, mostra-nos um pedaço do universo desconhecido pela humanidade.

Com o lançamento do segundo álbum, para além de mudar de editora, o artista parece ter optado por uma abordagem radicalmente diferente. Iglooghost continua a puxar o som eletrónico ao limite e a produzir música celestial fora deste mundo (ou até galáxia). Contudo, se fores ouvir este álbum e tiveres conhecimento do trabalho anterior do artista, não tenhas expectativas de encontrar as músicas ritmicamente frenéticas que marcaram o álbum de 2017.

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Neste projeto, Iglooghost pega nos elementos mais misteriosos e orgânicos que orbitavam e Neō Wax Bloom e desenvolveu-os ainda mais, dando-lhes o palco principal desta vez. O mesmo som do artista, porém numa linguagem diferente. Não tão visceral como antes, todavia, continua a ser soberbamente detalhado: cordas angelicais, batidas do bass alienígenas e vocais suaves. Mesmo direcionado numa abordagem mais amena, a produção e a destreza sonoplástica de Iglooghost não tem paralelo.

Agora dentro da lista de faixas, a primeira, “Eœ (Disk•Initiate)”, serve como uma boa introdução e generalização da palete sonora do projeto em si. Mimica o som de um computador futurista a ligar; os zumbidos que se propagam pela faixa são, ao mesmo tempo, metálicos e fluídos. A partir daí, a música contorce-se para algo mais virado para o IDM, com toda uma elegância notável.

Pure Grey Cirle” propaga ainda mais o sentimento de misticidade, no entanto, impulsiona-as com um uso mais agressivo do bass e ritmos percussivos, cordas não ortodoxas e um spoken word repleto de efeitos glitch. É das minhas favoritas do projeto. Um banger perplexo que apela a aqueles que acharam o ritmo esquizofrénico de Neō Wax Bloom demasiado para eles.

Sylph Fossil” leva o projeto para uma direção ainda mais glitchy e atmosfericamente mais escuro. Até este ponto, as três faixas progridem de forma soberba, dando a Lein Line Eon um sentimento holístico geral. O spoken word volta nesta faixa com mais garra e raiva, com a percussão e o bass a terem mais peso sonoro.

Contudo, é a partir deste ponto que o álbum começa a romper. Com “Light Gutter”, apesar de ser uma boa mudança do tipo de som até agora, a voz de LOLA, a convidada desta música, não parece encaixar no universo sonoro de Iglooghost. A voz parece tão “normal” para aquilo a que estamos acostumados com o artista: não é tão eclético e excêntrico como o ambiente formado à volta dela.

Big Protector” é mais uma grande e deslumbrante exibição de som, contudo a estrutura é enganadora e traiçoeira. A primeira parte parece que se está sempre a desenvolver e a acumular a nossa atenção para depois simplesmente não acontecer nada. Apesar de estar repleta de sons magníficos, termos como momentum e progressão não os integram. Ao mesmo tempo, esses mesmos sons, ao encherem ritmicamente e ativamente a faixa, fazem com que esta não se classifique como música ambiente e justifique essa mesma estrutura.

A iniciar a segunda metade do projeto, temos “UI Birth”. A participação vocal de Babii e os ricos instrumentais de Iglooghost fazem um par esteticamente muito melhor do que em “Light Gutter” (com LOLA). Os vocais gentis e ofegantes parecem especificamente formados para integrarem na tour do universo sonoro do produtor. A estrutura geral da música não reflete tanta firmeza e direção como no primeiro trio de faixas do álbum. Iglooghost apresenta uma ideia musical para depois destruí-la completamente, com um desvio para sons eletrónicos pesados e, subsequentemente, ir noutra direção completamente diferente. Uma faixa audivelmente desinteressante, com muitas distrações.

Zones U Can’t See” consegue salvar, minimamente, esta fila de músicas não muito apelativas. Uma faixa que encapsula bastante o som que esperamos deste projeto, minimalista, todavia cheio de atmosfera. Infelizmente, esta salvação não dura por muito tempo. “Amu (Disk•Mod)” tem a desonra de proporcionar os piores momentos de Lein Line Eon. O mixing está de longe dos standards bastante elevados que Iglooghost nos proporcionou até agora com a sua discografia. O pseudo-coro de crianças que enche os quase 4 minutos de som não aparenta estar gravado muito bem, por isso não se enquadra de todo no meio dos instrumentais. Talvez haja um esforço para tentar disfarçar isto com os sons eletrónicos a soarem de forma mais grosseira do que normalmente seriam, relativamente ao resto do LP.

Soil Bolt” é mais uma música que não tem um grande sentimento de direção e estrutura. Evidentemente, cria um ambiente de incerteza e da clara misticidade muito presente até agora, com o uso de sons sintéticos com uma estética mais folk. Todavia, sinto que um interlúdio de ambiente é a última coisa que este álbum precisa.

Este sentimento é ainda mais exacerbado na medida em que a última faixa, “Yellow Umbra”, não apresenta nenhum tipo de conclusão. As batidas e cordas detalhadas soam bem, mesmo que não acrescentem nada de novo ao LP. Esta encasula muitos dos aspetos negativos que falei até agora. É bastante ornamentada sonicamente, mas estranhamente atonal. Exuberante, mas aborrecida.

Por muita esperança que tinha de isto ser mais um projeto de renome de Iglooghost, saí dele à espera de mais. Apresenta uma abordagem mais simplista, o que não é uma coisa má por si só. O artista consegue expor as nuances e a beleza do seu talento e da sua capacidade de produzir, no entanto, pondo de forma simples, não “bateu”. Houve certas escolhas de produção de que eu achei questionáveis, composições desinteressantes. Por muito único que seja o som deste projeto, não há muita variedade nessa unicidade.