Conhecida por estar frequentemente enfiada em corpetes ou por interpretar uma rainha de copas que tudo quer decapitar, Helena Bonham Carter completa 55 anos esta quarta-feira. A atriz acumula já uma dezena de prémios, entre os quais um BAFTA, um Emmy e dois SAG Awards.

Entre a pasteleira Mrs. Lovett que servia deliciosas tartes feitas de pessoas em Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (2007) ou a pobre mulher de família que fazia sopa de couve com couve em Charlie e a Fábrica do Chocolate (2005), Carter já participou em mais de 70 filmes. Deu voz à romântica incurável Noiva Cadáver (2005) e vida à neurótica suicida que se infiltrava em grupos de apoio arbitrários em Clube da Luta (1999). Será, portanto, um pouco difícil – para dizer o mínimo – resumir mais de meio século na ribalta e nos grandes ecrãs.

Helena nasce a 26 de maio de 1966, em Islington, Londres, filha da psicoterapeuta espanhola Elena Propper de Callejón e do banqueiro britânico Raymond Bonham Carter. É descendente de aristocratas, tem dois irmãos e uma árvore genealógica quase tão densa e complexa como a quantidade de filmes que fez até hoje, por isso foquemo-nos apenas na carreira que preservou.

Ingressou no liceu feminino Hampstead antes de ser rejeitada na universidade privada de Westminster. Nos motivos da reprovação não entram más notas ou faltas de comportamento, mas sim medo por parte do quadro executivo, que receava que a jovem britânica abandonasse os estudos académicos para se dedicar à representação.

Do medo de uns, a realidade de outros. Aos 13 anos, Carter ficou em segundo lugar num concurso nacional de poesia e, aos 16, estreou-se na televisão com um reclame publicitário. Começou nos filmes em 1983, iniciando o percurso dos ecrãs com A Pattern of Roses que lhe rendeu, pouco mais tarde, a personagem principal em Rainha por Nove Dias (1986). Causou os primeiros burburinhos com a personagem de Lucy Honeychurch em Quarto com Vista Sobre a Cidade (1986) e aqui principiava também a reputação de Helena hirta pelos espartilhos.

Foi antes do virar do milénio que Helena passou de atriz a estrela. Desde então, trabalhou já com vários homens da indústria não particularmente imunes a escândalos sexuais e outras acusações. Em 1990, atuou ao lado de Mel Gibson em Hamlet e seguiu-se As Asas do Amor (1997), que lhe rendeu vários prémios e nomeações.

Trabalhou também com Woody Allen em Poderosa Afrodite (1995) e Roman Polanski em A Therapy (2012). Contudo, em entrevista ao Guardian, diz saber separar as águas: “nunca vejo as coisas a preto e branco (…) Weinstein era um bully, ponto final. Mas também, não é bem ponto final. Ele era um bully, um possível sociopata e um produtor de filmes incrivelmente eficiente”.

Bonham participou em alguns episódios de Ação em Miami (1984-1989) e fez de stripper em Dancing Queen (2012), além de ter subido a palco várias vezes com The Barber of Seville, House of Bernarda Alba e Woman in White. Os anos 2000 fizeram-se com macacos, magia e tecnologia. Conheceu Tim Burton, pai dos seus dois filhos, nas rodagens de Planeta dos Macacos, em 2001. Interpretou também Bellatrix Lestrange na saga Harry Potter (2001-2011) e teria feito de ciborgue em Exterminador Implacável – A Salvação (2009), se o guião original não tivesse vazado na internet.

Fez de bruxa em O Grande Peixe (2003), de fada-madrinha em Cinderella (2015) e de Rainha Elizabeth em O Discurso do Rei (2010), pelo qual ganhou um BAFTA e uma indicação ao Óscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Três anos depois, entrava na pele de Madame Thénardier em Os Miseráveis (2012).

Mais recentemente, entre imensas atuações que ficam por citar, fez de Rose Weil em Ocean’s 8 (2018) e interpretou a mãe da família Holmes no filme Enola Holmes da Netflix, focada na irmã do detetive Sherlock Holmes. Integra também o elenco principal de The Crown, colocando a tiara da Princesa Margaret, que lhe rendeu dois SAGS, um este ano e outro em 2020.

Helena Bonham Carter é uma cara conhecida do público, muitas vezes com caracóis preponderantes e ousados, maquilhagens garridas e saídas arrojadas – sem esquecer os espartilhos, claro. Fala abertamente de tudo e fá-lo, várias vezes, às gargalhadas. Com um repertório de filmes colossal que não dá quaisquer sinais de abrandar, podemos apenas esperar pelo seu próximo papel, enquanto observamos tudo aquilo que arrecadou até agora.