Em maio de 2009 foi publicada a obra A Vida em Surdina de David Lodge. O romance é uma teia bem intercalada de comédia, mistério e drama sem que pareça desconexo. Uma leitura leve e, definitivamente, memorável.

O nosso personagem é Desmond Bates. Este professor universitário, de caras com a reforma, apercebe-se que, afinal, vai sentir saudades de tudo aquilo. A carreira da sua mulher prospera, o que aumenta esta monotonia do protagonista e que o acaba por tornar um acompanhante e dono de casa. Ademais, Desmond tem um problema crescente em mãos: uma grande perda de audição.

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A surdina do personagem leva a diversas situações caricatas dentro de casa e fora dela. No entanto, ninguém parece levar este problema muito a sério. Visto que os sucessivos mal-entendidos levam a situações cómicas, o que nos faz refletir sobre se a frase “a surdez é cómica, a cegueira é trágica” é verdadeira. Não obstante, é esta surdez que leva o protagonista a envolver-se numa história com uma aluna misteriosa e que promete destabilizar a sua vida monótona.

O enredo não é, de todo, muito dinâmico, à exceção de uma situação. Contudo, não deixa de valer a pena por isso. Aliás, o facto de não ter muita ação e, ainda assim, se um autêntico page-turner é, sem dúvida, de louvar. Uma das características que mais dá valor à obra é a capacidade do autor de tornar uma tragédia de um personagem tão cómica como sensível. No entanto, não é por ser cómica que não conseguimos entender a profundidade do problema. Diversas vezes deparamo-nos com lutas de Desmond pela negação e pela aceitação do seu estado que nos fazem sentir empatia.

Esta obra de mal-entendidos, onde o não ouvir é o motor, tem um humor bastante britânico e muito equilibrado. Refira-se, ainda, a excelente tradução de Tânia Ganho que consegue variadas vezes passar para o português os trocadilhos e mal-entendidos originais sem que eles percam sentido.

A Vida em Surdina é um excelente exemplo de literatura light. Porém, importa referir que a literatura mais leve também pode e deve ser genial e este é um dos casos. Uma personagem inesquecível, um tema sério contado com humor britânico e uma tradução coerente fazem, sem dúvida, este livro uma paragem obrigatória.