Em Todos os Sentidos, de Lídia Jorge foi publicado em junho de 2020. A escritora portuguesa não se inibe de denunciar o egocentrismo tão característico da sociedade contemporânea.

Como não podemos vencer o tempo, escrevemos textos que o desafiam a que chamamos crónicas, alude a autora, ainda na introdução. O livro inclui uma coletânea de quarenta e uma crónicas que foram lidas por Lídia na rádio Antena 2, num programa de título similar ao da obra, ao longo do ano que antecedeu a sua publicação.

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Estes textos aparentemente individuais, guardam em si a visão singular de Lídia Jorge no que diz respeito ao mundo à sua volta. Reflete sobre temas como a efemeridade do tempo, a importância da literatura, do cinema e da arte, feminismo, tecnologia, filosofia, história, entre muitos outros.

Para conceber cada texto, a autora parte quase sempre de memórias, factos ou ficção. Porém, permite que a sua mente devaneie e o seu raciocínio se desenvolva naturalmente. Por vezes, até aceita que se perca em si mesma, para se encontrar no final, sem qualquer juízo de valor ou caráter moralista. Lídia Jorge expõe-nos o seu olhar atento sobre a atualidade, não poupando críticas e reflexões duras.

Ainda assim, faz menções a temas belos, joviais e intrinsecamente necessários à vida humana, como a amizade. Da mesma forma, nesta linha de pensamento, recorda nomes como Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Pilar del Rio, ou Rui Zink, e conta-nos histórias. É precisamente isso que Lídia Jorge melhor materializa nesta obra: a sua predisposição e mestria na arte de contar histórias.

A autora recorre ainda a um tema comum e permite-o crescer em si de uma forma bela e despreocupada. O seu ser torna-se transparente e conversa com o leitor, mostra-lhe os seus pontos de vista e narra-lhe as peripécias do seu passado ou histórias que foi ouvindo durante a sua vida.

Desta forma, podemos dizer que Em Todos os Sentidos é dotado de um tom bastante pessoal, sereno e lúcido. Lídia tanto divaga sobre a beleza da natureza como sobre assuntos atuais mais densos, e é essa discrepância de temas que torna a obra literária tão singular. Não receia utilizar a sua voz e o seu olhar imensamente critico sobre a realidade que a cerca, denunciando-a. Assim como não receia espelhar as suas angústias e mostrar o seu lado mais vulnerável.

Apesar de ter uma leitura fluida, isso não implica, contudo, rapidez. Por abordar temas tão reais envolve o leitor num clima introspetivo, que o obriga a involuntariamente pausar a leitura várias vezes e refletir. Para além disso, há múltiplos significados implícitos, perguntas deixadas em aberto e objetivos que requerem uma mesma reflexão para o seu entendimento.

A escrita da autora dispõe de uma clareza muito particular, onde as palavras utilizadas são cuidadosamente escolhidas e apoiadas na nudez das suas opiniões, algumas duras e outras imensamente belas e poéticas. Adicionalmente, Lídia absorve o mundo à sua volta, capta todas as experiências e guarda um bocadinho de todas as pessoas que cruzam a sua vida, para, posteriormente, exteriorizar na sua escrita.

Sente-se Em Todos os Sentidos através de todos os nossos sentidos. Quer seja pelas descrições, sugestões sensoriais ou no momento logo após a leitura, onde somos deixados a sós com os nossos pensamentos. A sua facilidade de contar histórias forneceu a base sólida para a construção destas crónicas que são, em si, pequenos episódios narrativos sobre a complexidade da vida humana. Com um ritmo contagiante, a obra de Lídia Jorge convida-nos a um momento de partilha e entendimento mútuo.