Lançado a 21 de maio de 2021, Sensational corresponde ao segundo álbum da cantora e compositora Erika de Casier. Numa tentativa de afastamento dos estereótipos da mulher no que toca ao amor, a artista traz-nos letras apaixonantes. Independentemente do entendimento do propósito de Casier, este álbum resume-se aos anos 90 e 2000, pautado por uma sensualidade extrema.

Arrependimentos, dicotomia de sentimentos e as múltiplas personagens do ser. Apesar de vaga, a primeira composição de Sensational corresponde a uma introspeção sobre os comportamentos de Erika de Casier, que lhe (nos) permite desconstruir o seu íntimo: “Drama”, um conflito interno por resolver; a vontade de mudar, pautada pela predisposição de permanecer igual.

Num primeiro momento, Erika de Casier auto-recrimina-se pelas suas decisões – “I wrote you twice last night / Wish that I could rewind / Take back whatever I said”. No entanto, sob a incapacidade de manipulação do tempo, a artista reconhece que não há mais nada a fazer. Aquilo que, para muitos, é uma impotência sem igual, para a artista aparenta ser apenas mais uma etapa da sua vida. Aceitação.

Embora a intencionalidade de causar problemas, Casier reconhece que esta é uma habilidade involuntária – “But I don’t mean to cause any drama / It’s just somehow, it always gets me”. Sendo assim, por entre a sensatez, deixa-se levar “down that road”, algo que, surpreendentemente, considera sensacional; momentos, acima de tudo, memoráveis. Desta forma, afirma – “You want drama? / I’ll give you a reality show / Night mode camera / Show you more and more”.

“Polite” dá seguimento a essa premissa. Durante cerca de três minutos, Casier recorda um jantar, onde a pessoa com quem estava tratou mal o empregado e passou a noite a falar sobre si própria. Perante a má-educação e o egocentrismo, a artista refere tudo aquilo que queria ter dito, mas que acabou por não dizer.

Ao longo da composição, aborda ainda as expectativas que criamos sobre alguém e a confrontação com uma realidade desfasada. A vontade não a desvirtua do desejo de estar com a pessoa – “I can’t deny it / You’re on my mind”. Contudo, garante que para que isso aconteça terá de haver uma mudança de comportamento – “If you wanna be my type / You better start being polite”.

O videoclipe de “Polite” descreve o trajeto físico e psicológico desta experiência. Uma estrada, um palco e uma mesa de jantar. Uma viagem, a contemplação daquilo que tem para oferecer – marcada por tons de azul, o que transparece uma serenidade e uma sensualidade sem igual -, uma cumplicidade inegável, a exemplificação clara do que sente e um caminho de reflexão.

 

Sem nunca se desvirtuar dos temas amorosos, segue-se “Make My Day”. A proximidade sonora com Sade é incontestável. Deste modo, entramos num universo sereno, invadido pela sensualidade da voz e letra de Erika de Casier. Para quem não segue o trabalho da artista, poderia considerar esta composição apenas mais uma balada.

Contudo, Erika de Casier apodera-se de típicas frases de engate –  “Do you come here often? / And when you fell from the sky / Well, did it hurt? / ‘Cause you are an angel” – para deixar uma mensagem. “Quando se pensa numa frase de engate, geralmente, imagina-se um homem num bar a dizer isso a uma mulher”, afirma. Perante uma certa hierarquia instituída na sociedade, a artista pretende ironizar e promover a alteração dessa dinâmica.

Segue-se “All You Talk About”. Apesar do instrumental diferencial, Erika de Casier apresenta-nos uma música que se aproxima de composições como “Love Don’t Cost a Thing” de Jennifer Lopez. A premissa é a mesma – acima das prendas físicas, o que importa são os sentimentos que a pessoa transparece. Desta forma, Casier refere “If you really-really care about me now; / Talk my language, do you know what I’m saying? / I mean; a kiss and a hug – yeah that’s all I want / I love diamonds but you can’t buy my love”.

Em “Insult Me”, Erika de Casier retoma a obsessão com os bens materiais. Além do aviso anterior, a artista acrescenta que, estando numa relação, continua a precisar de tempo para si  – “You and I as long as I can do my thing / And you do yours, can’t ya? / I can pave my own way without ya”.

Sob a incapacidade de ir ao encontro desse equilíbrio, e, acima de tudo, pelas falhas de comunicação e os constantes alertas de desinteresse em mudar – “You’re not listening to me / In through one ear and out of the other / You nod even though you’re not getting it / You insult me man”-, Casier reconhece que irá seguir com a sua vida.

Segundo Casier, a sexta composição de Sensational – “No Butterflies, No Nothing” – explora a vontade de nos querermos apaixonar por alguém, mas as borboletas na barriga –  sintoma inconfundível desencadeado pelo amor – não chegarem: “Feeling like my mind’s saying yeah, yeah, yeah / But my heart is in the way screaming no, no, no”.

Para representar esta realidade, Erika de Casier criou “uma espécie de reino “perfeito”, onde o drama subjacente quebra a imagem”. Lado a lado de cenas que aparentam ter sido retiradas do filme Orgulho e Preconceito (2005),  a artista foge de uma realidade que, para muitos, seria o cenário ideal para amar alguém.

Um dos motivos para a dificuldade em amar alguém é-nos apresentado em “Someone to Chill With”. Ao invés de procurar alguém para viver um romance, Erika de Casier reconhece a vontade de estar com alguém sem qualquer tipo de amarras – “Cause I don’t want any relationship / I’m looking for someone to chill with / Someone who can make me weak / With no strings on it”. De qualquer das formas, o discurso romanceado de Casier não deixa ninguém indiferente, principalmente pela aproximação às relações modernas.

De seguida, somos presenteados com o interlúdio “Acceptance”. Embora corresponda ao sétimo tema de Sensational, a verdade é que esta lógica de aceitação acompanha o álbum desde o seu início. No caso concreto, Casier transparece o entendimento de que, às vezes, as coisas não correm como nós queremos. Sendo assim, um instrumental, que poderia estender-se à duração média das restantes composições, é acompanhado da simples frase – “Nothing’s going my way”.

“Better Than That” introduz uma das coisas que têm corrido mal na sua vida. Ainda que não haja uma clara referência ao tipo de relação à qual Casier se refere, não deixamos de a associar a uma ligação amorosa. Assim sendo, a artista questiona-se sobre o porquê de a deixarem sozinha. Para além disso, manifesta, sempre com um toque cómico, a dificuldade que tem em superar a perda – “And what am I supposed to do? / Already watched that TED talk on how to let go”.

Tal como o próprio nome indica, em “Friendly”, Casier aparenta falar sobre uma amizade colorida. Por entre a vontade carnal de estar com a outra pessoa e o reconhecimento de que não transcenderá a um romance, a artista paira sobre a dúvida deste tipo de relacionamentos – “What would you do if I got into you?”.

Facilmente, “Secretly” poderia ser a continuação da composição anterior. Com a impossibilidade de confirmação de tal afirmação, exploremos a música como uma nova realidade e abordagem ao amor. Sendo assim, durante três minutos, Casier fala-nos acerca de um amor platónico. As palavras na sua cabeça procuram responder à pergunta – “So do you feel the same? / Could you let me know it?”.

“I tried to call you / But you didn’t answer the phone / I tried to pick you up”… Apesar do nome homónimo à clássica composição de Aurea, “Busy” de Erika de Casier apresenta-nos o outro lado da moeda – o equilíbrio entre o amor e a ambição, “Don’t know when I’m coming home / I know you ain’t been alone / Know it’s not easy / But I gotta work real hard / To get, to get where I wanna be”.

“Busy” faz-se ainda acompanhar por algo ligeiramente diferente. No entanto, que faz todo o sentido, um slideshow de fotografias. Ironicamente, a substituição de um videoclipe por uma sequência de imagens transparece a falta de tempo da persona de Casier para se dedicar a algo mais do que o seu trabalho. Talvez um pouco mais rebuscado, demonstra a exigência organizacional necessária para que tudo seja cumprido com o máximo de eficácia.

Da ausência de disponibilidade, chegamos a “Call Me Anytime”. A última composição de Sensational traz-nos uma letra sobre o término de um relacionamento. A dificuldade em esquecer o passado e ultrapassar o que outrora foram. A aguardar a cura do tempo, Casier termina. Apesar da proposta do álbum (ou talvez por isso mesmo), Sensational aparenta encaixar-se como uma luva com as experiências amorosas da generalidade das pessoas.