Ao Ritmo de Washington Heights chegou ao grande ecrã a 10 de junho e consigo trouxe o calor e a boa energia do verão. O filme marca em grande o regresso aos cinemas, apesar de ter mais espetáculo do que conteúdo.

Ao Ritmo de Washington Heights, adaptado do musical de Lin-Manuel Miranda com o mesmo nome, é a história de um bairro latino em Nova Iorque e dos sonhos de cada um dos seus habitantes. A personagem principal e narrador é Usnavi (Anthony Ramos), o dono de uma mercearia no bairro cujo sonho é reabrir o bar do seu pai na República Dominicana, onde nasceu.

Desde a cena inicial, em que todas as personagens são introduzidas, percebemos que é uma obra cinematográfica que não se contenta com pouco e que ambiciona grandeza. As dezenas de pessoas a dançar nas ruas de Washington Heights trazem um novo espírito e energia de comunidade, que têm faltado às pequenas produções mais recentes, devido à pandemia.

As personagens são demasiadas para enumerar, mas a história desenvolve-se mais à volta de Usnavi e Vanessa (Melissa Barrera). É também explorada a relação entre Nina (Leslie Grace), o prodígio do bairro que conseguiu entrar na universidade de Stanford, e Benny (Corey Hawkins), que trabalha na empresa de táxis do pai de Nina. Ainda assim, a atenção do filme está espalhada um pouco por todo o lado, devido ao elevado número de personagens e histórias que tenta seguir. Não é difícil acompanhar cada uma delas, mas isto faz com que certas personagens sejam pouco aprofundadas, devido à rápida mudança de foco.

Uma das cenas mais memoráveis do filme parte da questão “o que faria se ganhasse 96.000 dólares?”. Aí, cada personagem vai contando os seus sonhos e ambições, ao ritmo da música 96.000, numa coreografia de dimensões épicas dentro de água, que envolveu mais de cinco centenas de pessoas nas filmagens. Os visuais coloridos, cheios de vida e boa energia, embelezam a vida difícil que os habitantes do bairro levam, mas não a escondem. Todo a longa-metragem é uma romantização do sonho americano, da perspetiva da comunidade sul-americana, ainda que evidenciando certas contradições.

A banda sonora sublinha esta energia eletrizante e constante e, quando aliada às sensacionais coreografias criadas por Christopher Scott, origina um espetáculo de animação e celebração da cultura latina. Contudo, a decisão de reduzir o número de músicas em relação à peça original, mantendo a história quase intacta, contribui também para a pobre exploração de certas personagens e dinâmicas referida em cima. Apesar dos cortes, o filme conta com uma duração de quase duas horas e meia, que poderia ter sido reduzida nas cenas com a presença de Lin-Manuel Miranda como vendedor de granizados, que não contribuem em nada para a história.

Os principais pontos de destaque, para além da banda sonora e coreografias, são os desempenhos dos atores. No seu primeiro papel de protagonista, Anthony Ramos assume a ribalta e encanta sempre que está presente. Também Barrera, Grace e Hawkins entregam performances sólidas, tanto no ecrã como na voz. A grande surpresa é Stephanie Beatriz, que aparece num registo completamente diferente daquele por que é conhecida em Brooklyn Nine-Nine (2013-).

Ao Ritmo de Washington Heights é, no seu todo, uma experiência bastante agradável e energética, que merece ser vista no grande ecrã. Não surpreende muito com a história, mas a previsibilidade é posta na sombra dos excelentes números musicais e das personagens carismáticas.