Blue Weekend, lançado a 4 de junho, é o mais recente álbum de Wolf Alice. Tratam-se de uma banda de rock alternativo inglesa – se bem que podemos atirar o indie pop, british rock e, principalmente, o shoegaze à mistura. O novo trabalho é um retorno da banda à industria musical.

Formados em 2010 como um duo acústico, a contar com a vocalista Ellie Roswell e guitarrista Joff Oddie, desde 2012 a banda aumentou o número de membros – baixista Theo Ellis e baterista Joel Amey. Apesar de uma carreira com menos de uma década, já se estabeleceram como um dos pilares do revivalismo do alt-rock dos anos 90, mas sem falta de inovação e personalidade.

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Blue Weekend marca o terceiro álbum de Wolf Alice e deixou-me, de facto, uma marca pela positiva. São precisos apenas uns momentos para perceber que é uma grande passo em frente para a banda. Numa altura em que o simples ato de criar música se torna cada vez mais competitivo – com a era do streaming e das playlists com uma coletânea de artistas – é necessário conceber um álbum que consegue captar a total atenção do ouvinte. Com isto, o quarteto expande os seus horizontes ao pegarem num pouco de tudo de forma a elevarem o seu som a um outro nível.

O projeto abre com uma leve e repetitiva batida à qual se junta toques de guitarra no mesmo género. Os vocais de Ellie entram como uma faca quente em manteiga. Uma voz suave, mas que carrega uma debilidade e melancolia, acentuada pela reverberação que enche este espaço musical. “The Beach” começa calmo, mas torna-se cada vez mais preenchido e grandioso depois de cada refrão. O lirismo representa um remoinho de emoções na vocalista, um pé na paz e outro na tristeza. Por momentos. sente-se feliz, sentimento efêmero. A mágoa, depressão e a melancolia geral representam-se não só na letra – “Now I’m lying on the floor / Like im not worth a chair” – como no instrumental.

Na bela “Delicious Things”, Ellie canta-nos harmoniosamente uma narrativa sobre a sedutora promessa de fama e luxúria, com contos de pretendentes e charlatões de Hollywood onde esta se encontra aborrecida com a cobertura falsa do glamour. Os tons sinistros da música sugerem que toda a fama, festas e drogas com que Los Angeles é associada, apesar de parecerem deslumbrantes e perfeitas, impedem uma conexão humana e felicidade. Assim, estão todos dependentes dos seus vícios. O refrão é dos mais angelicais do projeto inteiro. A forma como Ellie usa a sua voz em combinação com o instrumental lento dá para uma música que imagino ser uma experiência de outro mundo ao vivo.

Mantendo-nos no mesmo estilo melancólico, “Lipstick on the Glass” é mais uma faixa melancólica, desta vez, sobre amor e traição. Não tão marcante como as anteriores e mais repetitiva, contudo, deixa uma boa impressão para o que ainda virá. Bem, mas essas expectativas são atiradas para longe com “Smile”. Aqui começamos a ver verdadeiramente a diversidade que Wolf Alice traz à mesa. Uma autêntica malha de grunge rock, com uma infetuosa bassline e vocais assertivos de Ellie. Para já um começo quase perfeito para o álbum.

Levando as coisas com mais calma, depois da explosão de energia que foi a faixa anterior, “Safe From Heartbreak (if you never fall in love)” apresenta-se como uma balada com algumas influências do folk, que revela o lado sentimental e vulnerável da vocalista. Esta temática foi abordada quando Ellie nos diz “I ain’t ashamed in the fact that I’m sensitive”, em “Smile”, criando um elo de ligação entre duas músicas sonoramente antagónicas. O momento acapella no fim acrescenta um toque ainda mais angelical a este momento. Embora seja uma música um bocado cliché, a performance da banda é boa o suficiente ao ponto de eu a ouvir sem problema.

How Can I Make It Ok?” é mais um momento emocional no álbum. Da perspetiva da cantora, esta surge como uma conselheira/amiga de alguém que sofre bastante com a ansiedade. Tenta assegurar que tudo vai correr bem e quer ajudar esta pessoa em tudo o que conseguir. As letras refletem bastante isto, principalmente o poderoso refrão. Mais uma vez, a voz de Ellie Roswell simplesmente delícia os meus ouvidos. Apesar de a lírica ser, de certa forma, simples, ela consegue preenchê-las de emoção e vivacidade. Os acordes e todo o instrumental atrás da voz complementa-a perfeitamente.

OK. Música seguinte. “Play The Greatest Hits”. Agora temos um momento de diversão para a banda. Dois minutos de punk selvagem carregadinho de garra, gritos, e um riff que grita apenas “vamos todos para o mosh!”. A bassline sinistra que perfura diretamente os nossos ossos bem como as paredes de noise que o guitarrista Joff Oddie nos atira fazem desta faixa um dos momentos mais altos de Blue Weekend. Relativamente a contemporâneos, esta música remete para bandas como Bikini Kill e Destroy Boys o que mostra, novamente, o alcance e a variedade que Wolf Alice possui neste álbum.

A banda mostra um lado mais sensual com a sedutora e devaneadora “Feeling Myself”. Ellie aborda com a sua poderosa voz temas relativamente ao amor-próprio após o fim de uma relação tóxica, onde até a masturbação sabe melhor do que o ex-amante. Ouvimos uma ementa musical cheia de guitarras distorcidas e contorcidas, sons transformados à lá o clássico shoegaze que servem de palco para a voz arrastada e angelical de Ellie.

The Last Man on Earth” é, para mim, o momento mais emocional de Blue Weekend. O lead single do álbum fala-nos da arrogância das pessoas, à espera de que algo de bom lhes aconteça, que algo caia dos céus só para elas, como se o próprio Deus (referenciado como “luz” na letra) lhes devesse algo. As consequências disto vêem-se na passividade com que se vive a vida e na espera de que algo lhes ilumine o caminho.

Eu já disse isto muitas vezes ao longo desta crítica, eu sei, mas a voz de Ellie parece que melhor a cada faixa. O duo entre a vocalista e um simples piano preenche os vales mais fundos. Esta harmonia é mais tarde complementada por uma simples batida e poderosos synths no fundo. Chegamos ao momento mais explosivo da música em que todos os elementos chegam ao seu êxtase e há uma quebra no fim – voltamos ao piano e à Ellie. Voltamos à voz calma e ASMR-ish que fecha estes 4 minutos de uma das melhores músicas do álbum e, quiçá, do ano.

Infelizmente, as duas últimas faixas não me agradaram tanto como as anteriores. “No Hard Feelings” fala-nos sobre o fim de um relacionamento e como lidar com essa pessoa no futuro e com todos os sentimentos expostos. Já “The Beach II”, leva-nos para um fim recheado de shoegaze. Combinando com as leves cordas e o chiar de synths no fundo, a música captura um momento de magia que nos faz levitar sobre as nossas melhores memórias.

Apesar de não serem músicas más por si só, no contexto do álbum, foram das menos memoráveis e das mais aborrecidas. A última ainda ganha pontos pelo ambiente que conseguiu criar, apesar de não ser suficiente para captar o meu interesse. Mas a “No Hard Feelings” caiu muito ao lado para o meu gosto.

De forma geral, Blue Weekend é o melhor projeto musical de Wolf Alice até agora. 40 minutos de confiança, euforia e sentimentalismo em (quase) total harmonia. Um álbum que de certeza estará na lista de melhores do ano para muitas pessoas (pelo menos na minha já está). O som de Ellie Roswell e companhia é uma experiência eclética ao mesmo tempo que mantém uma coesão exímia. As músicas demonstram maturidade e a habilidade de criar música graciosa, com emoção e genre-defying repleta de ardor, compostura, profundidade e inteligência emocional. Um brilhante retorno, quatro anos após Visions Of A Life, e um que vai cimentar a reputação de Wolf Alice ainda mais.