O festival começou este sábado no Posto Territorial da GNR, em Ruilhe, com Hause Plants e David Bruno.

A abertura da sexta edição do Rodellus aconteceu este sábado na freguesia de Ruílhe, em Braga. No primeiro de três fins-de-semana ao rubro, Hause Plants e David Bruno subiram ao palco do festival que leva a música urbana ao campo, este ano com a missão de apoiar a União Audiovisual.

Começou tudo em segredo: havia um ponto de encontro e, depois de reunidos com a organização, os visitantes eram encaminhados para o local secreto deste fim-de-semana. O sol, que até ali se tinha feito tímido por trás das nuvens, aquentava-se como para se juntar à festa. Aproximavam-se as 17h30 quando todos seguiram caminho rumo à desbrava.

À beira do palco, repousavam figueiras decoradas e os lugares, dispostos de acordo com as medidas sanitárias, eram igualmente coloridos. Nas cadeiras, aguardavam a cada visitante um chapéu de palha e uma pequena planta, para que a memória do festival pudesse crescer e florescer daqui por diante. Muito à semelhança do próprio Rodellus, que conseguiu prosperar num momento social e culturalmente frágil.

Ainda o sol ia alto quando Hause Plants começaram a atuar. Diretamente de Lisboa, o projeto de Guilherme Correia (Ditch Days, Huggs) canta a vida urbana e a nostalgia, a par do existencialismo e as peripécias do pós-adolescência. Acompanhado em palco por António Nobre no baixo, João Silva na bateria e Dani Royo na guitarra, deu vida a temas como Hazy, Here Somewhere e Summer Salt.

“É a primeira vez que tocamos esta música ao vivo”, disse Guilherme para introduzir uma faixa inédita. “Chama-se Fun at Random Places, que é o que estamos a fazer agora”. Seguiu-se Visual Diaries, um dos singles do EP de estreia Film for Color Photos. “É a única [faixa] que vocês conhecem, se estiverem ligados à Antena 3 à uma da manhã sem querer”, comentou, momentos antes de os moradores mais velhos das redondezas saírem para dançar também.

“As canções de Hause Plants são bedroom pop na sua essência, mas existem para serem ouvidas e tocadas ao vivo”, explicam em comunicado, algo que ficou claro pela energia em altas logo desde o início do concerto. Dani e António saltavam pelo palco, irrequietos, sorridentes e imparáveis, enquanto tocavam ainda Annie From Community ou Only You.

Com olhares cúmplices e várias brincadeiras, ficou clara a “urgência e a vitalidade do post-punk dos anos 80” que caracteriza a sonoridade da banda, mantendo sempre a sensibilidade das “paisagens etéreas do dream pop e do “shoegaze”. Terminaram com City Vocabulary, depois de Henrique dar um saltinho à plateia em busca dos simpáticos – e convenientes – chapéus do Rodellus.

Repousavam rosas de todos os tons do amor na mesa do DJ António Bandeiras quando o próprio entrou em palco, de camisa preta engomada e óculo escuro. Deu as boas tardes e serviu as entradas para o banquete de David Bruno com Papel Principal e It’s My Life, ao som da qual dançou com afinco.

No auge do seu baile a solo, dedicou ternamente Wind Of Change a um fã, enquanto lhe falava com o reverb ligado antes de lhe oferecer uma rosa escarlate. Sobe, então, Marco Duarte a palco, dando início à degustação de Praliné com os primeiros acordes. Eis que entra David Bruno de braços abertos a uma multidão que conhece a persona de ginjeira – e foi alegremente recebido, claro está.

David Bruno é o responsável por reinventar sonicamente as peripécias mais ‘portugalescas’ dos confins deste país, no coração do Norte ou nas fronteiras com Espanha. Exemplo disso é “Doucemen”t, do álbum Raiashopping, “dedicada a todos os emigrantes que já chegaram”, explicou, sem esquecer os “camienistes” que andam em “contramã”.

De colete axadrezado e mão atenta às samples, conduziu o público para o Monte da Virgem Platónica, uma cerimónia do segredo que entoa “ninguém sabe, ninguém vê”. “Foi inspirada num candeeiro de lava que eu tinha e me transmitia muita tranquilidade”, comentou, num momento em que as rosas começavam a voar para as mãos dos seus fiéis seguidores. “Agora já não o tenho, mas tudo tranquilo na mesma”.

Seguiram-se temas como Mesa Para Dois no Carpa, distinguida com o melhor videoclipe nacional pelo Curtas Vila do Conde, Salamanca By Night e Não Gosto Que Me Mentem. Houve também espaço para Interveniente Acidental, originalmente gravada ao lado de Mike El Nite, com quem o cantor formou o duo David & Miguel em abril.

“Esta música é só para quem vem ver os concertos, só a toco ao vivo”, declarou ao introduzir Lamborghini na Rulote, mesmo antes de se fazer ouvir o hino Bebe & Dorme, cantado em uníssono com a plateia. Marco dedilhava as suas serenatas na guitarra envergando uma camisa de cor malva, ele que “afina a guitarra, pois afina, de música para música, sempre certinho, parece um relógio suíço!”, exclamou David.

Chegou, por fim, a derradeira Festa da Espuma. Voaram rosas – e bouquets –, e poucos foram os que permaneceram sentados. Avizinhava-se o final do concerto, mas, em ode à produção do Rodellus, “que decide continuar a apoiar a cultura numa situação destas”, puderam ainda ouvir-se Inatel e #150ml.

Já depois de, pela mão de António Bandeiras, choverem pétalas sobre David e Marco, foi altura de dizer adeus a um fim-de-tarde passado em torno de boas gargalhadas. David Bruno chamou José Pedro, técnico de som, a palco para a despedida e uma última salva de palmas, desta vez dedicada “a todas as pessoas invisíveis” que fazem a cultura acontecer.

O Rodellus surge como uma lufada de ar fresco e a prova viva, e bem organizada, de que é possível proteger e promover a cultura com segurança mesmo no meio de uma pandemia. Embora com os lugares sentados, sentiu-se um misto de nostalgia – dos tempos antigos de dança livre – e esperança – por se poder viver a música ao vivo outra vez.

Nos próximos fins-de-semana, seguem-se The Twist Connection, Black Bombaim, Krypto e Grand Sun. Os bilhetes estão esgotados, mas, para quem se quiser juntar à desbrava, há streaming no Facebook do Rodellus com o objetivo de angariar fundos para a União Audiovisual. Até lá.