Sobreviventes, lançado em abril de 2021, conta-nos a história de três irmãos que, após vários anos afastados, se reencontram na sua antiga casa de campo, aquando da morte da mãe. Através da perspetiva de Benjamin, Alex Schulman faz-nos um relato dos acontecimentos que marcam o passado desta família. Consequentemente, o livro resulta numa reflexão envolvente sobre laços familiares, memórias e sentimentos como perda, culpa e luto.

Numa constante troca entre o presente que recua e o passado que avança conhecemos a história de três irmãos: Nils, Benjamin e Pierre. Depois de viverem vários anos afastados, no momento do reencontro, é percetível que estes três adultos nada têm em comum num presente onde cada um seguiu com a sua vida. Adicionalmente, é visível que o passado é apenas um conjunto de memórias que se desenvolveram no seio de uma família visivelmente disfuncional.

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No princípio, o enredo, que alterna passado e o presente, revela-se algo confuso, principalmente nos capítulos do presente em que a estrutura da linha temporal avança de forma não linear. Essa A linha do tempo desconexa conjugada com o ritmo lento da narrativa pode inclusive dificultar a leitura num primeiro momento. No entanto, com o avançar das páginas, o leitor vai-se adaptando ao estilo da escrita de Alex Schulman e aos poucos tudo começa a fazer mais sentido. A história começa a ser de tal forma bem entendida que o leitor pode imaginar as cores de um cubo mágico a organizarem-se lentamente em cada uma das suas faces.

As personagens, apesar de interessantes e misteriosas, não apresentam grande carisma, por isso é provável que os acontecimentos relatados nem sempre abalem os sentimentos do leitor. Conhecemos os protagonistas desta história pelas suas atitudes, que são contadas através do ponto de vista de Benjamin. Quase não existem descrições objetivas das personagens, desta forma todas as informações que nos chegam derivam das observações do irmão do meio e das conclusões que ele próprio tira. As conclusões apresentadas demonstram-se pertinentes), pois contribui para o clima de mistério que se vai formando em volta dos acontecimentos por ele descritos. É de notar também que a aparente falta de carisma das personagens não influencia a dinâmica entre elas, pois apresentam um desenvolvimento de relações muito rico, que por vezes justificam as ações praticadas.

Um dos pontos mais fortes desta obra é, sem dúvida, a construção do ambiente sombrio, misterioso e melancólico em que somos mergulhados. A escrita de carácter essencialmente descritivo podia correr o risco de se tornar arrastada e maçadora, mas isso raramente acontece graças ao constante apelo aos sentidos promovido pelo autor. Essa narrativa sensorial torna-se quase poética à medida que vamos lendo e nos vamos familiarizando com a escrita, o que facilita a imersão do leitor, transportando-o aos poucos para dentro da história.

Por fim, o mistério que permanece num crescendo de obscuridade durante toda a obra ganha luz numa reviravolta surpreendente e arrebatadora. Depois de uma revelação que choca até o mais atento dos leitores, várias reflexões complementam o desfecho da trama. No fundo, temos uma história crua, inserida num ambiente que tanto tem de sereno como de sombrio. Por extensão, Sobreviventes fala-nos sobre sobrevivência e sobre as várias formas que o luto pode ter nas nossas vidas.