Mais do que o álbum de estreia de Emma-Jean Thackray, Yellow é uma travessia psicadélica até uma dimensão escondida – ou perdida, à espera de ser reencontrada. Saiu esta sexta-feira pela sua Movementt e traz uma mensagem de unidade, partilha e celebração, além de jazz de várias cores e feitios.

Emma concentra em si um sem-fim de vertentes musicais – é cantora, compositora, DJ, multi-instrumentista – e tem vindo a destacar-se na cena do jazz britânico. Com já vários EPs e colaborações na bagagem, é conhecida por pegar no jazz e fazer dele plasticina, mostrando todas as formas que pode ter quando se esbatem fronteiras entre estilos e correntes.

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Em Yellow, a compositora paira pelo p-funk, o prog-rock dos anos 70 e até neo-soul, com inspirações que vão desde Sun Ra e Alice Coltraine às orquestrações dos Beach Boys. Emma mira também para as pistas de dança em alguns temas, com uma seleção cuidadosa que lhe permite preservar esse atributo sem se tornar enjoativo e, ainda, exaltar os momentos mais intensos do álbum. “Say Something” e “Sun” são exemplos disso mesmo.

A viagem começa em “Mercury”. Címbalos abrem um portal instigante para a próxima dimensão e instala-se uma melodia tocada ao piano que convida a despertar. Depois, os synths traçam o caminho e um padrão de três notas de baixo acompanha-nos atentamente. Perto do fim da faixa, ouvem-se os primeiros cânticos do álbum. “Mercury” é entoado por uma miríade de vozes, pouco antes de emergir a voz de Emma a recitar um dos ideais do álbum: “To speak, to hear, to know, to love / Our communities are bound by words”.

A receção é calorosa e termina com a verdade absoluta que é amar e somos chamados à ação. “Say Something”, com videoclipe no Youtube e um dos singles de avanço do álbum, é uma espiral ascendente com estrutura pop e um travo a disco house. Quando o instrumental cessa, restam as palmas ritmadas de um coro por si melódico, que lateja até ao fim.

About That é uma viciante quase-interlude e serve para introduzir “Venus”, uma das mais arrebatadoras do álbum. Com um cenário erguido a ritmos afrobeat, Thackray entra em palco e dela partem vocais que se prolongam numa reza cada vez mais alegre e contagiante. A chamada a Vénus varia entre um apelo à humanidade e uma invocação divina, num registo que é, acima de tudo, livre e resplandecente.

E nem só de amarelo se faz esta paleta. Em “Green Funk” apela-se à abertura da mente e “Third Eye” evoca a responsabilidade e a consciência, sempre em aura de celebração. Chegamos, então, ao lugar do ritual: “May There Be Peace” é a reunião de várias vozes em torno do mesmo mantra, que roga a paz e o amor em toda a criação. Enaltece-se a intensidade do poder vocal através de taças tibetanas, que parecem emoldurar todo o cenário e nele entranhar o ouvinte.

Tal sarau serve como um respiro antes da segunda metade do álbum. Próxima paragem: “Sun”. Entre o coro e uma percussão fervorosa, entoa-se uma ode à vida e à esperança dos dias melhores. A paisagem é verdejante e luminosa, especialmente em “Golden Green”, que embala a sonoridade antes de imergirmos nas profundezas de Spectre, uma das mais intimistas do álbum.

Este tema foi “um meio para a catarse”, explica Emma no Instagram. “Repleto de metáforas”, centra-se na saúde mental da artista e dos que lhe são próximos. “There’s a Spectre in my house / It haunts me” é a sentença da canção que serve quase para exorcizar eventuais tormentas que esvoacem sobre o ouvinte.

Terminamos em “Mercury (In Retrograde)” que não só dá conta de um olhar atento ao esculpir o disco, como também traça uma narrativa muito peculiar para um álbum centrado no positivismo. O mercúrio retrógrado é uma espécie de Lei de Murphy da astrologia, teoricamente responsável pelas ocasiões em que as coisas correm mal. E a faixa parece trazer o ouvinte de volta à Terra, onde há problemas e complicações, como que para enfatizar a sua inevitabilidade e a necessidade de remar contra essa enchente.

Diz a psicologia das cores que o amarelo é a mais expansiva e intensa de todas. Transmite vida e calor e é a cor do caminho para a clareza mental. Percebe-se agora o porquê e a excelência da escolha cromática, tanto a nível de simbolismos como de composição sonora. Há equilíbrio até nos momentos mais vertiginosos do álbum. É na interseção de diversos estilos e inspirações que a música de Thackray ganha vida e Yellow confirma-se como a apoteose de uma visão singular.

Concebido através do corte e costura de várias gravações de ensaios com a banda, Yellow é o mensageiro de Emma-Jean e tem tantos segredos para contar. Seja através de percussão, teclas, synths, baixos e guitarras ou tubas, trombones, trompetes e saxofones, este álbum prega a unidade, a gentileza e o amor ao próximo. Por mais pesada que a vida consiga ser, ainda para mais no último ano, aqui está um sublime lembrete do quão bom é existir e partilhar.

Por mais utópico que se afigure, é muitas vezes desse sopro de esperança que se precisa. Emergimos num outro patamar depois de ouvir o álbum: o mundo tingido a verde e dourado. Sabemos haver encanto e preciosidade nas mais ínfimas coisas, mas é tão fácil esquecermo-nos. E, no final de contas, a vida é uma festa. Celebremos.

Com design digno de uma carta de tarot, da autoria de Maegan Boyd, Yellow já está disponível em todas as plataformas de streaming.