Quase 30 anos após o seu lançamento, Juventude Inconsciente é agora uma obra de culto e um dos clássicos do género coming of age. O filme conta com um elenco de estrelas, uma banda sonora perfeita e um sentimento de nostalgia inexplicável por uma década que a maior parte de nós não viveu.

À moda de Linklater, Juventude Inconsciente não tem um enredo definido, nem um acontecimento principal catalisador da ação. Desta forma, a história acompanha as personagens durante as 24 horas do último dia de aulas antes das férias do verão de 1976. Os jovens vagueiam de carro à procura de algo para fazer, fumam, bebem e tomam parte em rituais de iniciação ao “estilo de uma praxe”.

Não há um foco particular em nenhuma das personagens, mas se tivéssemos de escolher protagonistas, o papel cairia no colo de Randall “Pink” Floyd (Jason London) ou de Mitch Kramer (Wiley Wiggins). Ainda assim, todas elas recebem um tempo de antena relativamente equilibrado, o que ajudou a catapultar personagens “secundárias” para o estrelato de Hollywood. Nomes como Ben Affleck, Adam Goldberg, Milla Jovovich e Matthew McConaughey, com o seu icónico “alright, alright, alright”, são alguns exemplos.

Tal como nos restantes filmes do género, também neste conseguimos distinguir os diferentes cliques: desde os desportistas, aos stoners e dos caloiros aos repetentes cujo pico será o secundário. O maior medo de Floyd é cair nesta última categoria e que a partir dali a vida seja uma descida constante, algo que certamente já passou pela cabeça de todos nós. Aliás, ele diz ainda: “se alguma vez me referir a estes anos como os melhores da minha vida, lembrem-me de me matar”.

Juventude Inconsciente lembra-nos de aproveitar ao máximo o presente e não nos preocuparmos demasiado com o futuro, sobretudo na adolescência. Nas palavras de Don (Sasha Jenson), devemos perguntar-nos: “fiz o melhor que pude enquanto estive preso neste sítio?”. A longa-metragem é mais do que uma representação dos jovens dos anos 70.  É algo que se aplica a qualquer geração e é por isso que o filme nos deixa a sensação de nostalgia, mesmo sendo por uma altura em que não tínhamos sequer nascido.

Com o título original retirado da música Dazed and Confused dos Led Zeppelin, as expectativas para a banda sonora eram altas e Linklater não desiludiu. Desde a cena inicial, em que duas personagens chegam à escola num muscle car americano ao som de Sweet Emotion, o ambiente rock dos anos 70 é estabelecido na perfeição. Além de Aerosmith, ainda Alice Cooper, Deep Purple, Black Sabbath, KISS e muitos outros pilares musicais daquela década dão som à obra cinematográfica.

Também o guarda-roupa com as cores e padrões extravagantes e característicos da década de 70 é extremamente bem concebido. O embelezamento estético e a boa energia da longa-metragem fazem-nos desviar ligeiramente do olhar da masculinidade tóxica presente em certas personagens. Além disso, o pouco desenvolvimento das personagens femininas, utilizadas como pouco mais do que adereços num “mundo de homens”, é também um aspeto que nunca deixa de incomodar.

No final de contas, Juventude Inconsciente é um filme sobre os pequenos momentos que guardamos na memória, as banalidades do dia a dia que nos fazem realmente felizes, mesmo sem nos apercebermos na hora. Durante 102 minutos, é uma caixa de diversão, introspeção e frases icónicas que continuam a ser citadas três décadas depois.