A Lenda do Cavaleiro Verde chegou aos cinemas portugueses a 9 de setembro e é um dos maiores divisores de opiniões deste ano. Ainda que seja soberbo a nível visual e sonoro, a falta de ação e a ambiguidade de toda a história fazem com que não seja um filme fácil de ver.

A nova longa-metragem de David Lowery é baseada num poema arturiano do século XIV, mas o realizador oferece uma nova perspetiva da história de um dos cavaleiros da Távola Redonda. Gawain (Dev Patel) é o jovem sobrinho do lendário Rei Artur (Sean Harris) e pouco mais do que isso. Desta forma, o rapaz passa os seus dias na taverna, a beber, ou no bordel com a sua amante, Essel (Alicia Vikander). Para além disso, corrige as pessoas quando lhe chamam Sir, relembrando que (ainda) não é um cavaleiro.

A sua oportunidade de se provar digno de um lugar à mesa surge quando, no dia de Natal, o Cavaleiro Verde (Ralph Ineson) irrompe pela sala e lança um desafio aos restantes presentes. Qualquer um que o consiga atingir, receberá o seu imponente machado, mas, um ano e um dia depois dessa data, o golpe terá de ser retribuído. Gawain, ingénuo, decapita o adversário, que se levanta, recolhe a cabeça do chão e vai embora a rir, perante a confusão e terror do público.

Após um salto temporal de um ano, começa a viagem de Gawain até à Capela Verde, onde se encontrará com o Cavaleiro. Mais do que uma longa e dura travessia física, a jornada do jovem é sobretudo psicológica. Por extensão, encontra pelo caminho todo o tipo de obstáculos saídos diretamente de uma história de fantasia, mas batalha sobretudo com a própria mortalidade. Mesmo com o ritmo bastante lento do filme, nunca deixamos de sentir que Gawain está a cavalgar para a morte e a ficar sem tempo.

Ainda assim, dei por mim várias vezes a pensar que não seria assim tão mau se cavalgasse um bocadinho mais rápido. As longas e contemplativas sequências sem qualquer ação energética, características de Lowery, acabam por se demonstrar um teste à paciência do espectador. A cinematografia de tirar o fôlego, o design de som perfeito e a banda sonora do mesmo nível acabam por ajudar a manter a imersão na experiência de visualização. Contudo, as cenas em que a iluminação é quase inexistente são igualmente boas a distrair e confundir quem está a (tentar) ver.

Para além disto e de toda a misticidade visual do filme, o facto de que Lowery deixa imensos aspetos para a imaginação e interpretação da audiência contribui para uma desorientação ainda maior. No entanto, não é completamente mau, já que abre as portas a que cada um reflita sobre a obra.

O que não deixa espaço para dúvidas, todavia, são os excelentes desempenhos do elenco. Dev Patel destaca-se como protagonista e entrega mais uma performance fantástica, mas quem não fica atrás é Alicia Vikander, que interpreta não uma, mas duas personagens de forma exímia. Também Ralph Ineson faz um papel admirável como Cavaleiro Verde, mesmo debaixo de toda a caracterização, que deve ser elogiada, assim como todo o guarda-roupa.

A Lenda do Cavaleiro Verde não é o típico filme medieval, da mesma forma que Gawain não é um herói tradicional. O protagonista é uma personagem multidimensional e profundamente imperfeita, mas que embarca numa jornada de autodescoberta e de procura pela sua identidade. A ação é substituída pelos momentos silenciosos de introspeção e as épicas batalhas sangrentas dão lugar ao conflito interior de um jovem inseguro em busca de honra.

Tal como a A24 e Lowery já nos habituaram, A Lenda do Cavaleiro Verde é mais uma longa-metragem de grande qualidade e que maravilha visualmente qualquer um. Ainda assim, nem sempre é fácil manter a atenção durante os 130 minutos, sobretudo quando não se faz ideia do que está a acontecer.