Mulherzinhas, obra lançada em 1868 por Louisa May Alcott, é considerada um clássico da literatura infantojuvenil. Através deste livro, visto como o mais célebre da autora, conhecemos as dificuldades de uma família, depois da partida do pai para a guerra e dos problemas económicos que se agravaram nessa altura. Apesar das várias adversidades, a coragem, o amor e a união que reina no lar da família March permitem que as quatro raparigas, em conjunto com a sua mãe, enfrentem os problemas com esperança e boa disposição.

Durante a leitura desta obra, rapidamente percebemos que se trata de um romance de formação, já que assistimos às peripécias das irmãs durante a infância e adolescência das mesmas. Com o avançar dos capítulos, é notável o crescimento de cada uma das meninas, que aos poucos se vão tornando “mulherzinhas”. Além disso, o livro também apresenta um papel moralizador, já que a maioria dos acontecimentos narrados terminam com uma pequena lição de moral, promovendo valores como o amor, a partilha, a humildade, a gratidão e o altruísmo.

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Um dos aspetos que mais contribuiu para a aclamação desta história são as personagens. Meg, Jo, Beth e Amy são adoráveis, e embora sejam crianças não deixam de ser maduras e responsáveis, devido à exigência do tempo em que viviam. No entanto, a inocência associada à faixa etária das irmãs permanece durante toda a obra, tornando a narrativa mais real e genuína. A personagem que mais se destaca é Jo, podendo até ser considerada a protagonista deste livro. Jo assume um papel de heroína intemporal pela sua personalidade irreverente e lutadora, distinguindo-se assim por não corresponder ao estereótipo feminino da época.

As restantes irmãs também ocupam um lugar relevante na história, pois as variadas personalidades permitem ao leitor identificar-se com as mesmas. Isso torna-se ainda mais oportuno se pensarmos que, originalmente, a obra foi escrita precisamente para crianças e jovens, com idades semelhantes às das personagens. Desta forma, da mais simples à mais vaidosa, da mais obediente à mais rebelde, as personalidades são tão distintas que aproximam o enredo ficcional à realidade vivida pelos leitores da época.

A escrita da autora é simples e de fácil compreensão. Por um lado, isso deve-se ao público-alvo, já que se trata de uma obra infantojuvenil. Por outro lado, também se pode justificar a simplicidade da escrita pelo facto do enredo retratar acontecimentos do quotidiano, sem grande profundidade. No fundo, o objetivo é apenas contar a história da família March, destacando os valores e a moralidade de cada um dos membros. Contemplando também a tentativa de passar esses mesmos princípios aos leitores deste livro, que no século XIX eram sobretudo meninas em idade de formação.

Embora muitos fatores já referidos anteriormente possam levar à aclamação desta obra, também há várias problemáticas associadas à história de Louisa May Alcott. Antes de mais, é importante perceber que o livro foi publicado numa época diferente da nossa e, por isso alguns aspetos têm potencial para entrar em conflito com pensamento de hoje em dia. Nomeadamente, o caráter machista e redutor da condição da mulher, visível em algumas passagens. Porém, o facto de ser um retrato da sociedade acaba por justificar a grande aceitação que se registou na época da sua publicação, já que esse tema ainda não tinha sido discutido como é agora, 150 anos depois.

Não obstante, esse machismo inerente foi um dos aspetos que mais me incomodou durante a leitura e, à luz do pensamento atual, essa questão pode acabar por comprometer a experiência. Além disso, existem alguns momentos em que senti a leitura menos dinâmica, chegando ao ponto de ser um pouco monótona. Porém, essa estagnação, que por vezes acontece durante a narrativa, é justificável. Isto porque a trama pretende mostrar a vida da família March e é natural que por vezes assuma um caráter mais calmo, quase contemplativo do dia-a-dia das raparigas. Assim, tal como a vida nem sempre é recheada de ação, a obra também não tem a obrigação de o ser.

Mulherzinhas é uma história encantadora, repleta de bons ensinamentos e lições e ideal para o público infantojuvenil. A obra possuí uma continuação chamada Boas Esposas e, nesse segundo livro é possível acompanhar as quatro irmãs numa fase mais avançada, aquando da entrada na vida adulta. A história de Louisa May Alcott conta ainda com várias adaptações para o cinema, sendo que a última, estreada em 2019, recebeu seis nomeações para os Óscares, incluindo o de Melhor Filme, e arrecadou o de melhor Guarda-roupa. Desta forma, este clássico da literatura permanece presente na atualidade cultural e a união da família March continua a marcar várias gerações de leitores.