Ninguém Escreve ao Coronel, o segundo livro de Gabriel García Marquéz, foi publicado em 1961. Com um mote bastante simples, este “pequeno grande” conto faz-nos refletir sobre as injustiças da política e da sociedade, ao mesmo tempo que é capaz de nos comover.

Gabriel García Marquéz, para muitos, dispensa apresentações. Aliás, não é qualquer um que é galardoado com um Prémio Nobel da Literatura. Contudo, para entendermos melhor Ninguém Escreve ao Coronel, temos de conhecer melhor o autor, não enquanto autor, mas enquanto pessoa. O escritor colombiano nascido em 1927 foi, desde cedo, entregue aos cuidados dos avós. A avó era uma apaixonada pelas histórias indígenas e o avô um coronel, antigo combatente na guerra civil.

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Gabo (como é carinhosamente apelidado por muitos), após um breve percurso pela área do Direito, transferiu-se para a Universidade de Cartagena e formou-se em Jornalismo. Esta decisão levou a que a sua vida fosse bastante dividida entre a escrita ficcional e a jornalística e ambas acabaram por se influenciar bastante. Foi por várias vezes correspondente noutros países e acabou por permanecer na Europa por questões de segurança. Aliás, foi em Paris que escreveu Ninguém Escreve ao Coronel (1961).

O segundo romance do autor dá-nos a conhecer uma história que fala, sobretudo,  das injustiças da vida. Um coronel reformado vive com a mulher, mas as condições estão longe de ser as melhores. As dívidas acumulam-se, comer torna-se uma batalha cada vez maior, as doenças da idade começam a dar sinal e não podem contar com o apoio do filho, pois este acabou por falecer baleado uns anos antes.

No meio de toda a situação, as únicas esperanças dos protagonistas são um galo deixado pelo filho para o porem a lutar ou à venda e a quem muitas vezes dão o que têm para comer, para que engorde, e uma carta que tem demorado a chegar. Esta carta que o coronel vai esperar todas as sextas-feiras está 15 anos atrasada e deveria trazer o pagamento da sua reforma. Ao invés, sempre que o protagonista acha que esta vai chegar, recebe apenas a mesma frase do carteiro: “Ninguém escreve ao coronel”.

Esta história comovente é-nos trazida através de um estilo bastante simples. Sem grandes floreados e demarcado por uma grande economia de palavras, este livro passa-nos a mensagem de uma forma direta. Contudo, não é por isso que deixa de ser realista ou sentimental. Aliás, é bastante notório o carácter semi-biográfico do texto. A obra foi escrita quando García Marquéz tinha 29 e vivia algumas dificuldades financeiras. Ademais, não esqueçamos a presença importante do seu avô, outrora coronel, na vida do escritor. A forma como a história nos é contada demonstra-se, definitivamente, como fruto de alguém que conhece pessoalmente a experiência.

Para além dos temas da pobreza e censuras perpetuadas na América Latina, a obra leva-nos a refletir, principalmente, nos paradoxos políticos e sociais ainda hoje vigentes. A forma como alguém que deu tudo pela máquina política se vê abandonado pela própria quando mais precisa é dura e dá o mote para a sátira camuflada no texto. O estilo próprio do galardoado autor ajuda a densificar a narrativa. A sua simplicidade permite que nos foquemos apenas no que realmente interessa – a mensagem.

Apesar de não ter “grandes baixos” ou “grandes altos”, Ninguém Escreve ao Coronel é uma grande viagem contada em poucas páginas. As personagens tornam-se facilmente pessoas reais numa situação injusta e igualmente real. O autor, mais uma vez, consegue fazer um retrato cru da condição humana e, mais concretamente, da América Latina. Um trabalho incrível e que deixa a vontade de continuar a ler García Marquéz.