Bela, de Ana Cristina Silva é uma biografia ficcionada de Florbela Espanca. A obra publicada em outubro de 2020 é caracterizada pelo intenso estado de alma angustiado e trágico da poeta. A escritora portuguesa entra na mente de Florbela para nos apresentar o seu mundo emocional.

Há melhor maneira de começar um livro sobre Florbela Espanca, senão pelo momento mais esperado da sua vida? “Bela acabou de se matar”, são as primeiras palavras desta obra literária tão arrojada. O tom cru e sem artifícios, que nos deixa imediatamente desconfortáveis, é análogo à ação da protagonista.  Ao longo da narrativa, procura-se, inconscientemente, uma explicação para o persistente estado melancólico e entristecido de Florbela. Assim, os capítulos seguem uma linha temporal desde o seu nascimento até ao momento da morte de Espanca.

Bela nasceu de uma relação extraconjugal do pai e nunca recebeu a devida atenção dele ou da madrasta. Cresceu a acreditar que o amor é condicional e efémero e que não era digna de o conhecer. Divorciou-se duas vezes e casou três, sempre na esperança de contrariar essa crença que a assombrava. Porém, todas as figuras masculinas da vida da poeta (à exceção do seu irmão, Apeles) desvalorizaram a sua inclinação artística, e culparam-na pela sua “tendência para o exagero e a consistente vocação para a tragédia”.

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Bela foi uma mulher ousada, inconformada e não limitou os seus desejos às opiniões alheias. Todavia, a sua alma estava imensamente ferida e isso repercutiu-se na sua escrita. “Fiz versos porque tinha a boca cheia com os gritos de uma criança que ninguém amou”, diz-nos num dos interlúdios. Então, a poesia tornou-se necessária para a sua sobrevivência e permitiu-lhe curar as chagas abertas na infância. Por isso, é que a sua escrita é dotada de uma nudez tão característica: conseguimos sentir o que Bela sentia e ver materializado o que nós próprios também sentimos, mas não conseguimos exprimir. Escreveu com o intuito de encontrar alguém que a compreendesse, que lhe dissesse que era digna de amor e que a sua poesia era importante.

A morte é, para Florbela, uma amiga que anseia encontrar, “sonhou com ela desde que nasceu e espreita-a imensamente feliz”. Não a teme, nem tampouco a encara com um olhar depreciativo, mas espera-a numa impaciência doce. Consequentemente, a figura da morte torna-se numa espécie de musa inspiradora para a criação poética e ocupa um lugar primordial no seu trabalho.

Ao longo da obra, Ana Cristina Silva faz questão de destacar a misoginia intrínseca à sociedade do começo do século XX. Um ambiente marcado por falsas aparências, preconceito e inflexibilidade, onde os papéis de género estavam bem salientados. Deste modo, a narrativa cresce num ambiente dicotómico, quase incompatível. Por um lado, há capítulos desprovidos de um narrador participante, que nos anuncia de forma distanciada a vida de Florbela e das pessoas próximas a si. Estes capítulos são indicados com data e local e contribuem para a formação de uma imagem mais global. O narrador omnisciente aproveita-se da posição de várias personagens da vida de Bela para transmitir ao leitor uma outra vertente da história. Porém, acaba por passar uma imagem negativa da poeta, uma vez que a mesma questionou inúmeras vezes a sociedade em que estava inserida.

Por outro lado, temos os interlúdios de Bela narrados na primeira pessoa, onde a artista partilha as suas angústias com o leitor. Conhecemos a opinião de Espanca sobre o mundo que a rodeia e somos expostos a exemplos do seu inconformismo.  A figura de Florbela surge como um grito de libertação aos cânones tradicionalistas. Por ser mulher, as suas vontades não eram levadas a sério e as suas decisões eram criticadas por todos. Os retratos da protagonista diferem imenso entre si, dependendo do capítulo. Por conseguinte, nunca somos aprisionados somente na mente da poeta, mas temo-la como referência para os outros pontos de vista. Cabe ao leitor decidir qual dos lados pretende crer: o da mulher instável e narcisista, ou o da mulher sensível e infeliz que procurou na poesia uma forma de se conhecer e aceitar como suficiente.

A escrita de Ana Cristina é cruel, brutalmente honesta e desconfortável, mas é, simultaneamente, sensível, bela e poética. As personagens são extremamente bem construídas e dinâmicas, sobretudo a protagonista, que nos revela o estado caótico da sua mente. Ana Cristina traduz a fragilidade da natureza humana num tom irónico e ousado, onde a critica mais do que venera. É uma narrativa triste e melancólica que aborda temas densos e delicados, precisamente por ser um reflexo de factos reais. Nos interlúdios, notamos o cansaço e a saturação na voz da poeta, o que torna a leitura mais pesada. Ainda assim, a autora corta a tensão com os capítulos na terceira pessoa que nos permitem distanciar da subjetividade da sua mente.

Em Bela, Ana Cristina Silva não escreve sobre Florbela, mas sim com ela. Capta os mais ínfimos pormenores da sua alma angustiada e dá-nos a conhecer a complexidade deste vulto tão querido. O leitor torna-se num confidente, enquanto a protagonista devaneia sobre a sua existência. Florbela tornou-se, assim como tanto ambicionava, na “voz poética feminina de Portugal”, e encontrou na poesia a imortalidade de uma vida efémera e sofrida.