O 13.º álbum de Low, banda indie rock natural de Minnesota que, em 28 anos de carreira, nunca lançou um mau álbum, chegou dia 10 de setembro. Hey What é mais uma prova de que Alan Sparhawk e Mimi Parker reinventam o rock enquanto se reinventam a si próprios. Poderia dizer-se um pêndulo, que balança desalmadamente entre o desolador e o edificante, mas, aqui, essas sensações não são opostos isolados, e sim partes conjuntas de um mesmo fenómeno. Sentimos tudo ao mesmo tempo.

Em Ones and Sixes (2015), partiram à descoberta da caixa de ritmos. Depois, assumiram a experimentação com distorções noise e o mundo em escombros a partir de Double Negative (2018). Os snares converteram-se em estática, trepidante e perturbadora, e, em vez do baixo, ouviam-se espirais enevoadas de ruído. No instrumental, residia o caos em forma de som, uma violência quase tátil de tão explícita em cada barulho. As vozes haviam também sido tomadas de assalto, mas nunca perdendo a perfeita harmonia pela qual os Low são conhecidos.

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Double Negative foi considerado uma analogia sonora da América de Trump, o reflexo de uma era em que todos tinham algo para dizer, mas ninguém escutava – uma última tentativa de contacto feita através de um canal corroído. Estava patente um sentido de devastação, como se, do topo de um edifício, Low vissem a nação a desmoronar à sua volta e documentassem todas as quedas até que, por fim, caem também.

Qualquer peça de arte pode ser enquadrada num contexto histórico, social e político. Não obstante, deve também ser dotada de autonomia, no sentido de que se basta a si própria. Double Negative é arrebatador em si mesmo, um registo sonoro singular cujo poder advém da imprecisão com que traça tão minuciosamente um cenário cataclísmico. O mesmo se diz de Hey What, que não consigo analisar sem o relacionar com o seu antecessor. Não se sabia bem o que esperar de uma banda que parecia já ter levado a sua obra ao limite. Mas a resposta chegou este mês e, se Double Negative documentava um colapso social contemporâneo, Hey What entoa o assimilar de um mundo em ruínas, a ponderação de um próximo passo rumo à bonança, a regeneração.

Do staccato inquieto de “Disarray”, de Double Negative, entramos no descalabro de Hey What através de “White Horses”. Os instrumentos mal soam a si próprios, tentando recompor-se após a desordem. A guitarra fragmenta-se, resultando numa intermitência acirrada que serve de pano de fundo para a canção. Termina, então, com um minuto e meio de pulsação, que acelera e alicerça “I Can Wait”.

Configura-se um álbum mais melódico que o antecessor, no qual as vocais eram severamente processadas e distorcidas. Em Hey What, volta a ouvir-se a harmonia imaculada de Parker e Sparhawk. Os vocais tornam-se, também, mais altos do que o instrumental, como por exemplo em “Don’t Walk Away”, e parecem abrir lugar para respirar. Talvez este aspeto contribua para o sentido de esperança do álbum – a mensagem volta a ouvir-se, já não estamos dentro dos destroços, mas a tentar escapar-lhes.

A sobreposição das vozes etéreas e delicadas a uma eletrónica rígida e severa é um dos expoentes deste longa-duração. Os surtos de som não identificável podiam tornar uma qualquer outra música estranha e perto de intragável. Em Hey What, contudo, a distorção eletrónica parece pertencer-lhe, e as vozes rasgam o tumulto do ruído como um raio de sol atravessa as nuvens ao fim de uma tempestade.

Numa viagem a outro mundo, “Days Like These” principia quase acapella. Arrojados e francos, Low entoam “when you think you’ve seen anything, you’ll find we’re living in days like these”, num coro reminiscente do gospel. As letras, fragmentadas e minimais, tanto se podem relacionar com a ansiedade colateral à pandemia ou ao sentimento de estar preso e descontente, intrínseco à condição humana – “y’know you’re never gonna feel complete”.

Repete-se um sentimento já familiar da mente humana: “That’s why we’re living in days like these again”. As vozes emancipam-se com a mesma velocidade que se deixam submergir, até a guitarra se transformar em estática e, por fim, aniquilar a melodia. Latejam, então, synths vagos, amplos, enquanto “again” flutua como um lembrete e uma certeza de que estes dias, vazios e tristes, vão voltar a acontecer, por uma razão ou outra.

O tom do álbum não pode ser tido como otimista – sente-se, sim, a busca pelo conforto na família e na fé. Entre o ruído ensurdecedor e os vocais etéreos, Hey What conjuga o amor e o pesadelo, entrelaçando uma esperança que pulsa e um medo assombroso. Não faz promessas sobre o futuro, mas acredita na existência de um.