Três anos após o lançamento do seu último disco, Alessia Cara está de volta com mais um álbum de estúdio. Lançado a 24 de setembro, In The Meantime é um trabalho introspetivo que explora temas como o amor e o autoconhecimento.

Segundo Alessia Cara, este novo disco é fruto das reflexões que o confinamento trouxe. “E se todos os meus melhores dias foram os que já passaram? Durante a pandemia foram diversas as reflexões que me fizeram escrever este disco. Eu estava parada, sem ter muito o que fazer, e é aí que a cabeça não para de pensar”, contou a artista num evento para a imprensa. De facto, não há dúvida de que o destaque de In The Meantime recai sobre a forma livre e sincera com a qual são abordados temas que, apesar de familiares, nos são sensíveis. Com uma narrativa envolvente e ritmos viciantes, estamos perante aquele que pode ser já considerado o álbum mais maduro da cantora canadiana.

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A faixa que nos abre portas a este mix de emoções é “Unboxing Intro”, uma canção breve que nos fornece pistas sobre o propósito do disco. Através de versos como “Need some clarity/ I missed therapy”, Cara admite ter sentimentos aprisionados dentro de si, os quais são libertados nos segundos finais. Feita esta observação, não admira que a artista tenha apelidado o álbum de “carta de libertação”. É como se cada tema se tratasse de um desabafo com o qual o ouvinte se identifica. Segue-se “Box In The Ocean”, uma espécie de continuação da composição anterior, cuja batida composta por blues e toques de reggae é idêntica a sons dos anos 2000.

A comovente “Bluebird” e a divertida “Find My Boy” dão lugar a um autêntico deja vu que nos remete para melodias que já ouvimos antes. Os acordes descontraídos de guitarra são comuns a ambas as faixas e fazem-nos lembrar o bossa nova, um estilo musical popular no Brasil. Já o ritmo dos versos iniciais do primeiro tema assemelha-se bastante a “Que Reste-T-Il De Nos Amours”, de Charles Trenet. Liricamente, a canção retrata o fim de um relacionamento amoroso e a dificuldade de seguir em frente (“You look happier/ I checked, of course/ I wish you the best, of course/ I’m hurting less, I’m sure”).

É evidente que In The Meantime contém uma dualidade relativamente aos temas que explora, uma vez que as composições transitam entre sentimentos felizes e momentos de sofrimento e desamparo. As faixas “Fishbowl” e “Sweet Dream” encaixam-se neste último registo, retratando a batalha da artista contra a ansiedade e as suas consequências (“It’s gettin’ too hot out here/ Don’t feel like anybody/ Is it getting hot in here? It’s me against my body”).

Embora os sentimentos turbulentos sejam bastante recorrentes no álbum, a sua produção reúne um vasto leque de influências pop e R&B, com melodias que se afastam bastante do pop introvertido que marcou o início da carreira da artista. Apesar desta reinvenção, há um pormenor que ainda se mantém presente: a proximidade com o ouvinte. Ouvir o disco de princípio a fim é como ler um diário, através do qual a artista abre o seu coração de uma forma que nunca vimos antes.

Apesar de todos os pontos positivos, vale, ainda, ressaltar alguns pormenores que, apesar de pouco relevantes, poderiam ter sido evitados na produção de In The Meantime. Acontece que o álbum inclui demasiadas faixas na sua composição, o que acaba por torná-lo um pouco cansativo. Para além disso, a ordem pela qual estão dispostas não é linear: parece existir uma linha que separa as composições de maior qualidade, que surgem na primeira metade do disco, das canções que não adquirem tanto destaque. Apesar deste aspeto, o álbum continua a ser o melhor álbum de Alessia Cara e continua a deixar-nos com vontade de mais.