Love for Sale, o segundo álbum da colaboração de Lady Gaga e Tony Bennet, foi lançado a 30 de setembro. Em homenagem a Cole Porter, este projeto conta com 12 faixas que elevam o nome da artista e resumem bem os quase 80 anos de carreira de Bennett. Dois artistas extraordinários, uma amizade bonita e um álbum para lá de divertido.

Se acreditarmos que há momentos em que os astros se alinham e algo de grandioso acontece, é inegável que a gala Robin Hood Foundation de 2011 foi um desses. Afinal, foi aqui que se iniciou uma bela amizade entre Tony Bennett e Lady Gaga. É preciso arranjar justificações cósmicas para isto, visto que os artistas não podiam pertencer a mundos mais diferentes.

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Se a palavra “clássico” tivesse uma personificação, seria algo muito parecido com Bennett. Com 95 anos de idade, a lenda do jazz lançou agora o seu sexagésimo primeiro e último álbum. Já Lady Gaga, com 35 anos e sete álbuns lançados, é conhecida por romper com as regras, desde as batidas diferentes aos vestidos de carne. Contudo, e apesar de poucos o saberem, Stefani Germanotta (Lady Gaga antes de o ser) teve um pequeno passado no jazz. O encontro com Bennett permitiu que essa personagem fosse, felizmente, reavivada. Aliás, a cantora de Chromatica (2020) já anunciou algumas datas em Las Vegas dedicadas ao jazz.

Bennet acabaria por pedir a Gaga que cantasse um dueto com ele no seu álbum Duets II (2011). Em 2014, juntaram-se novamente, mas para um álbum inteiro de jazz, Cheek to Cheek. No dia do lançamento deste projeto, Bennett não se demorou a convidar a artista para um novo. Contra todas as probabilidades, muito devido à situação pandémica, à idade avançada do cantor e à doença de Alzheimer com a qual batalha desde 2016, Love for Sale foi gravado entre 2018 e 2020.

Apesar de ter havido tempo para dois solos de Bennet e dois de Gaga, o Love for Sale prima pelos momentos que têm juntos. Importa, contudo, valorizar o momento reflexivo e nostálgico de Bennett em “Just One Of Those Things”. Das faixas partilhadas, destacamos, por exemplo, a homónima ao álbum. Neste momento falam-nos dos amores fogosos e rápidos, mas também dos perigos que estes trazem. Apesar de não ser o momento mais inesquecível, é um bom resumo do tom e estilo que podemos esperar da colaboração.

O clássico feito famoso por Sinatra, “I´ve Got You Under My Skin”, também faz uma aparição. Com uma química justamente comparada a Armstrong e Fitzgerald, os artistas fazem aquilo que um cover devia ser sempre. Honestamente, para quê gravar uma música a tentar imitar o que originalmente se fez? A arte está em conseguir tornar a música própria e isso só é possível através de vozes peculiares, interpretações exímias e a dose certa de criatividade. No entanto, nenhum dos artistas está disposto a entregar-nos menos do que isso. A letra é ligeiramente modificada num momento amoroso de forma a fazer referência a uma tatuagem de Lady Gaga. Esta tatuagem peculiar é um desenho do trompete de Miles Davis feito por Tony Bennett.

Já em “I Get A Kick Out Of You”, outro hit bastante conhecido, falamos acerca do desligar das regras e opiniões quando estamos apaixonados. Nesta faixa que nos obriga a dançar, percebemos que as vozes dos dois encaixam na perfeição. Apesar de a idade ser percetível na voz de Bennett, não deixa de ser uma grande voz. Para além disso, aqui destrói-se qualquer dúvida que restasse sobre se Lady Gaga conseguia, de facto, cantar jazz. A artista consegue transformar-se numa personagem completamente independente da diva pop que nos fazia gritar “Papa-paparazzi”.

A excelência não se deixa ficar pelo trabalho dos dois cantores. Os arranjos old-school criam a atmosfera que este projeto exige. A acompanhar temos flautas, xilofones, baterias e pianos que teimam em não falhar. Mas como em qualquer bom álbum de jazz, é o trompete que se destaca em várias músicas e que aqui é tocado por Brian Newman.

O final é a cereja no topo do bolo e, com isto, temos uma experiência para lá de agradável. Uma prova das capacidades inegáveis de Lady Gaga e um espaço que lhe permite explorar o jazz e a teatralidade que lhe é inerente de uma forma diferente. Um último reafirmar de Bennett, uma lenda do género que se provou genial em 80 anos de carreira. Uma prova de que o jazz não morreu, uma demonstração de uma amizade bonita e um passar de testemunho comovente, mas que não deixou de se divertir.