Toxicity, lançado a 4 de setembro de 2001, é o segundo álbum do grupo de metal alternativo, System of a Down. Esta peça, que veio solidificar o lugar da banda como uma das estatuetas do metal moderno, conta com singles como “Toxicity”, “Aerials” e a infame “Chop Suey”. Um marco gigantesco na história do metal, mas também na música ativista.

Em tempos em que parece que o mundo inteiro está a arder, é agradável olhar para as épocas mais simples e calmas, como a de há 20 anos. No entanto, por vezes esquecemo-nos de que, afinal, estava tudo igual. Antes de explicar isto, precisamos de algum contexto. Numa época em que o que estava na moda musicalmente eram conjugações clichés e, a meu ver, preguiçosas, de metal e rap, os System of a Down trouxeram à ribalta uma quebra muito necessária. A banda não deixou de absorver alguns dos estilos musicais do metalprevalentes. Contudo, conseguiram transformá-los ao ponto de formarem um som único que continua a testar o correr do tempo.

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Neste oceano de mediocridade que era a cena musical do género no berço do segundo milénio, os SOAD destacaram-se com as suas personalidades abrasivas, raiva fora de controlo e refrões carregados de mensagens políticas. As raízes arménicas da banda também tiveram um lugar especial na sua música. Melodias, percussão e instrumentalização geral fazem uma alusão notória às suas origens. Não esquecendo o talento do vocalista, Serj Tankian, cujo vozeirão continua, até hoje, sem comparação na energia e caráter, é impossível confundi-lo com qualquer outro.

No álbum de estreia, self-titled, abordavam temas de fanatismo religioso e imperialismo americano. A música dos S.O.A.D parecia quase uma profecia do que viria a acontecer nas décadas seguintes. Toxicity foi lançado apenas uma semana antes dos ataques de 11 de setembro. Todavia, a sua lírica também anteviu o futuro autoritário governamental que marcaria as décadas após os ataques. Os temas da poluição, vício, prisões privadas e guerras infindáveis, por muito deprimente que seja admitir, são ainda mais atuais em 2021.

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Apesar das 15 faixas, Toxicity oferece uma experiência curta, com apenas 44 minutos de duração. Sabendo como o fazer, não é um aspeto negativo, de todo. A banda ostenta um leque diferenciado de músicas, cada uma com o seu charme, história e intuito. Com o seu talento e visão, os SOAD dão-se ao luxo de criar hinos e baladas místicas, ao mesmo tempo que chacinam os nossos tímpanos com bangers de 2 minutos, como através das excêntricas “Jet Pilot” e “Bounce”.

No meio de faixas bizarras, o álbum emprega uma série de músicas significativas e bastante sérias. “Prison Song” abre este ciclo. Uma música puramente “sloganística”, mas que consegue ser cativante e não cansativa e enfadonha. Os riffs nesta faixa são absolutamente aterrorizantes, especialmente no início. Levamos instantaneamente uma placagem ao clicar no play. Este tipo de som contribui muito para a criação do clima de medo e tensão, como se a própria música estivesse a perseguir-nos.

Já que estamos a carregar na tecla do angustiante, “Deer Dance” revolve à volta da brutalidade das forças policiais, especialmente contra protestantes pacíficos. A faixa progride para a descrição de crianças a serem empurradas com armas automáticas, perpetuando vivamente esta imagem de crueldade e violência. Com uma mensagem pesada e refletiva e com uma musicalidade agressiva, equiparável à sua antecessora, tem como seu momento mais marcante a bridge– uma pausa numa outrora faixa maníaca. A transição dos vocais de Serj devoram por completo o refrão, abrindo alas para esta parte de tirar o fôlego. Tudo isto, juntamente com as harmonias da guitarra acústica, reforça, novamente, a capacidade musical que os SOAD possuem.

O projeto contém, também, um senso de espiritualidade. Faixas como “Forest” e “Science” referenciam diretamente a destruição do ambiente em nome do progresso humano e tecnológico. Temas estes que são igualmente expressados na música “ATWA”, que funciona como uma despedida àquilo que a Natureza nos ofereceu e que estamos a destruir aos poucos. Há, ainda, uma série de músicas que liricamente englobam conteúdos de controlo. Temos, por um lado, o controlo geral e nefasto sob a população, como é o caso de “Shimmy”. Aqui, especificam-se ideias de conformismo como resultado de doutrinação. Por outro lado, temos o controlo causado pelos vícios e dependência de substâncias, como expressado em “Needles”.

O vício continua a ser abordado na faixa mais popular do álbum – e da discografia inteira de System of a Down – a lendária “Chop Suey”. Esta música que todos os adolescentes em fase rebelde ouviam em loop (eu incluído), centra-se num conflito entre duas personagens. Uma delas tem um sério problema e está a fazer de tudo para o manter escondido, varrê-lo para baixo do tapete. A outra (de certa forma, um antagonista) tenta expor este problema e força a primeira a lidar com ele. A pressão toda leva a pessoa afetada a cometer suicídio. Este momento, com Serj a gritar a Deus – “Father (…) Why have you forsaken me?”, acaba por se tornar quase religioso. Esta é uma das faixas mais pesadas, tanto lírica como instrumentalmente. Aliás, muito mais pesada do que eu, na minha adolescência, conseguia perceber. Talvez por ter sido um fenómeno internacional, depois de tantos covers e replays, apercebemo-nos, tristemente, que o significado da música fica muitas vezes posto de lado.

A faixa que deu nome ao álbum, outra das mais populares da carreira de S.O.A.D., culmina muitas das ideias abordadas até agora. A perda do contacto com a Natureza e espiritualidade e a ruína para onde a civilização humana se arrasta são o tema central. Pouco à frente, temos um clímax emocional e instrumental ainda maior. “Aerials”, repleto de vocais carregados de emoção e deslumbrantes riffs de guitarra, explora temas de isolamento e criação de barreiras à nossa volta. Um apelo ao abatimento de mentes fechadas e ao egoísmo, de forma a alcançar uma liberdade pura e verdadeira.

Com um simples “passar de olhos” pelos conteúdos aqui abordados é arrepiante o quão atuais estes são e mostra o pouco desenvolvimento humano que (não) se revela desde então. Daí o meu comentário inicial. De uma forma geral, Toxicity é um marco monumental, que vai muito além do que lhe é pedido e esperado enquanto álbum de metal. É um álbum encantador e bárbaro, complexo e misterioso que, num piscar de olhos, se torna cruelmente agressivo. Toxicity é ridículo por vezes, mas brutalmente sério ao mesmo tempo. Sem margem para discussão, um dos melhores álbuns de metal das últimas duas décadas e de muitas mais que virão.