Entre as soluções para combater as alterações climáticas, a alimentação e a produção de alimentos assumem um papel fulcral.

O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) estima que em 2030, dez anos mais cedo do que o previsto, a temperatura global pode aumentar 1.5ºC, com consequências desastrosas para a vida no planeta. Segundo Lorenzo Pastrana, professor-investigador e líder do grupo Food Processing and Nutrition Integrated Micro and Nanotechnologies no International Iberian Nanotechnology Laboratory, “não existe uma solução única para o problema da crise climática”. No entanto, afirma que uma alimentação sustentável pode reduzir o impacto negativo da atividade alimentar no panorama ambiental.

A procura por alternativas no meio alimentar é vital para a sobrevivência humana e para o combate à crise climática. A sobre-exploração de recursos naturais assume-se como um problema, já que “o planeta tem as terras cultiváveis que tem e não se pode cultivar no cume de uma montanha ou num vulcão”. Desta forma, “a capacidade de produzir alimentos no planeta é limitada. Se ultrapassarmos a capacidade de produção estamos a comprometer a produção futura, porque estamos a reduzir a fertilidade das terras para o futuro”. Outras questões também são levantadas por este problema como “quantas pessoas podem viver no mundo com a produção de alimentos que existe?”

A unidade Nano4Food está a desenvolver novas metodologias para ultrapassar estes limites. Com a tecnologia atual é possível produzir uma quantidade de alimentos elevada. Porém, pelo menos um terço desses alimentos que são produzidos não são consumidos e estragam-se devido a diversas razões. O projeto pretende “desenvolver tecnologias que permitem produzir mais alimentos, de forma mais sustentável e que resultem em menos desperdício”, garante o professor-investigador em declarações ao ComUM.

Integrando o Food Processing Group do INL, a unidade Nano4Food pretende encontrar novas formas de conservar os alimentos tornando a alimentação mais sustentável. Lorenzo Pastrana salienta que o INL tem vários projetos para alcançar esta meta, em particular projetos de embalagens com o objetivo comum de “desenvolver novos sistemas em novos materiais que permitam colocar os produtos nas prateleiras e reduzir o desperdício alimentar”. Além disso, a unidade procura ser sustentável em termos de limitar ou reduzir o uso de petróleo nas embalagens, ou seja, diminuir a distribuição de embalagens de plástico que acabam por chegar aos oceanos e causam um forte impacto ambiental. Da mesma forma, o projeto visa “fazer sistemas de embalagens mais inovadores, com novas propriedades, como por exemplo embalagens comestíveis ou embalagens inteligentes que permitam a comunicação com o consumidor”.

Quanto questionado sobre a adesão das grandes empresas e do público a estas inovações no futuro, o investigador afirma que é algo que “já está a acontecer no presente”. O decréscimo da utilização de plásticos derivados de petróleo no setor da alimentação já está a ser implementado atualmente. “Todas as grandes companhias já têm objetivos concretos para evitar o uso de plásticos tanto na produção como no retalho, parando a distribuição de sacos plásticos”, acrescenta. O projeto do INL tenta encontrar soluções para esta tendência que é algo que já existe e os “consumidores estão totalmente mentalizados”.

Os professores José Oliveira e José Teixeira do departamento de Engenharia Biológica da UMinho consideram que “o consumo de produtos locais, frescos, contribuem para uma alimentação saudável e, ao mesmo tempo, para minimizar a pegada de carbono”. Os docentes referem que existem atualmente “matérias biodegradáveis para produzir embalagens e filmes e revestimentos edíveis (i.e. comestíveis) que permitem reduzir os efeitos negativos sobre o ambiente”.

Relativamente ao futuro da alimentação, os professores acreditam que “a exigência dos consumidores levará certamente a que os produtos alimentares sejam elaborados, cada vez mais, de forma a ter efeitos benéficos na sua saúde”. Da mesma forma, explicam que a alimentação do futuro vai passar “pelo uso de vários constituintes de micro e macroalgas, pelo uso proteína de insetos, pela incorporação de antimicrobianos de origem natural ou mesmo de bacteriófagos (vírus que se alimentam de bactérias patogénicas) em substituição de antibióticos, entre outros”.

Por outro lado, o aumento da duração dos alimentos pode ser uma forma de reduzir o desperdício alimentar. Assim, “o uso de embalagens com sensores incorporados (e.g. temperatura) permitirá conhecer a integridade dos alimentos, sem ter que olhar para a data de validade”, acrescentam. Da mesma forma, salientam que “as questões de logística/distribuição alimentar têm um papel relevante na minimização do impacto climático do consumo alimentar, o que exige um efetivo esforço de otimização das cadeias de distribuição”.

Por último, os docentes defendem “o respeito por diferentes opiniões/ideias” como forma de combater o preconceito em relação a pessoas que mudam os seus hábitos alimentares em função do ambiente. Deste modo, reiteram que “o aumento da literacia científica e cultural dos cidadãos permitirá certamente esbater a intolerância”.

Entrevistas por: Inês Batista e Joana Oliveira

Artigo escrito por: João da Silva e Joana Oliveira

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