Os pais de Diogo começaram a notar sintomas aos três anos. Quase um ano depois já sabem como reagir, mas confessam que “todos os dias são diferentes”.
Em 2021, comemoram-se os 100 anos da descoberta da insulina. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a diabetes continua a ser uma pandemia com dimensão e impacto sem precedentes. A Federação Internacional da Diabetes divulgou recentemente que 537 milhões de adultos vivem atualmente com diabetes em todo o mundo, um aumento de 16% face às estimativas de 2019.
De acordo com os últimos dados do Observatório Nacional da Diabetes, Portugal posiciona-se entre os países europeus que registam uma das mais elevadas taxas de prevalência da Diabetes, a qual foi estimada em 13,3% da população portuguesa com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos – o que corresponde a mais de um milhão de indivíduos.
Diogo foi diagnosticado com diabetes tipo 1 em fevereiro de 2021. Os pais, Cátia Veloso e Fábio Ferreira, contam ao ComUM como é que foi todo o processo e como é que encararam a doença do filho. As pessoas com diabetes tipo 1 necessitam de terapia com insulina para toda a vida porque o pâncreas deixa de a poder fabricar.
Coberto por uma manta no sofá, Diogo vai alternando a sua atenção entre jogar Pokémon Go e ver vídeos infantis no Youtube. Simultaneamente, Cátia e Fábio relaxam no sofá, sempre atentos aos valores de glicemia do filho. Já depois do jantar e perto da hora de dormir, Diogo diz que tem fome e os pais dão-lhe meia dúzia de amêndoas e um copo de leite. Com o telemóvel na mão, a evoluir um Pokémon, o Diogo distrai-se enquanto a mãe lhe faz a picagem do dedo. Não desvia o olhar do ecrã. “Estão bons”, diz Cátia para o marido.
Em meados de janeiro, Cátia e Fábio começaram a notar algumas diferenças no Diogo. “Ele tinha sempre muita sede. Estava sempre a pedir água”, explica a mãe. “Depois começou a comer imenso. Comia muito e a toda a hora. Eu achava que era do pico de crescimento”. Mas o momento determinante foi quando, num dia, antes de ir para a casa da avó, as calças que “lhe estavam super bem”, não seguravam.
“Isto não pode ser normal. Então ele come mais e emagrece?”, questionava-se Cátia. Com esta questão em mãos, a mãe de Diogo decidiu pesquisar sobre os sintomas da diabetes e confirmou-os todos. “A fome, a sede, o xixi e a perda de peso. Check, check, check e check”. E, com isso, lá foram fazer um teste de glicemia ao “Dioguinho”.
Em jejum, o Diogo tinha o valor de glicemia nos 232, encontrando-se quase em hiperglicemia, conta a mãe. Os valores normais de glicemia em jejum deve estar entre 80 e 100. “Levei-o para a mãe do Fábio, porque era confinamento e ele não tinha escola e fui trabalhar. Mas aquilo não me deixou descansada e, portanto, liguei para a Saúde 24. O senhor que atendeu disse-me que não estava em causa o risco de vida, por isso transferiu-me para o centro de saúde”, conta Cátia. “Eu assim fiz e tentei marcar uma consulta de urgência. A senhora do atendimento disse que me ligava de volta no dia, mas não o fez. Não quis ficar parada e rapidamente fui à procura de ajuda. Encontrei um grupo de apoio no Facebook e expus lá o meu caso”.
O grupo incentivou Cátia a levar o filho rapidamente para o hospital “antes que fosse tarde demais”. A maioria dos pais só descobre a doença quando os filhos desmaiam. “Podemos dizer que tivemos sorte”, afirma Fábio.
Uma nova realidade
“Fomos transferidos para o Centro Materno-Infantil do Porto para lhe dar qualidade de vida, uma vez que havia uma bomba de insulina à espera dele”. Cátia recorda bem a batalha e confessa que nunca mais se vai esquecer. “O Diogo em cima da cama, um conjunto de médicos e enfermeiros de volta dele. Estudantes estavam também a ver. As enfermeiras a fazerem-me perguntas por todo o lado e eu a responder parecia uma barata tonta”.
O tratamento da diabetes tipo 1 é exigente. Necessita de uma avaliação regular da glicemia, avaliação nutricional dos alimentos ingeridos e administração de insulina antes de todas as principais refeições. “Ficamos lá uma semana mais por mim do que por ele, para eu perceber tudo: como é que funcionava a insulina, como é que funcionava o libre, como é que funcionava a contagem de hidratos de carbono para as refeições, como é que se reagia em caso de hipoglicemia grave onde se tem que se injetar com adrenalina para ele acordar”, relata. “Depois viemos para casa e é tudo um mundo novo. Os primeiros dias foram assustadores e eu mal dormia”.
Fábio recorda o primeiro dia em casa. “Fui buscá-los à hora de almoço. Chegamos a casa e, logo no início da tarde, já estávamos a ligar para a enfermeira porque os valores estavam estranhos e nós assustamo-nos. Passado uns dias lá fomos percebendo o que tínhamos que fazer e habituamo-nos”.
“Todos os dias são diferentes”, considera Cátia. “Mesmo com comidas iguais, ele tem reações diferentes”. “Há um dia que tudo corre bem e, se for preciso, no dia a seguir fazemos igual, ele come o mesmo tipo de comida e os valores alteram na mesma”, acrescenta Fábio.
“Tive que aprender a lidar”
Mas como é que um menino de 4 anos reage a ter esta doença? Os pais declaram que o Diogo se adaptou muito bem e muito melhor do que aquilo que esperavam. Contam que, ao início, ele resistia um pouco à picagem à frente dos outros. “Sempre que tinha gente à volta ele não picava o dedo, mas em casa sim. Agora ele está a fazer qualquer coisa e só estica o dedo. Se eu ou a Cátia pegarmos na máquina para picar e ele estiver, por exemplo, a jogar no telemóvel, ele nem olha e estica só o dedo. E agora, mesmo à frente dos outros, também é assim”, expõe Fábio.
Cátia, no início, não conseguia conceber que não era capaz de ter os valores de glicemia do Diogo sempre controlados. “Tu não vais conseguir ter a glicemia de um diabético tipo 1 sempre controlada. É impossível e eu tive que aprender a lidar. Houve uma altura em que eu estava um bocado mal psicologicamente, mas só pensei que ele precisava de mim”. Segundo Cátia, o objetivo é tentar manter os valores no alvo a maior parte do tempo. Ou seja, “a glicemia média é que é importante”.
Voltar à escola
Com o melhorar da pandemia, as escolas voltaram a abrir e o Diogo voltou para a escola com o novo diagnóstico. “Durantes 15 dias estive na escola à hora de almoço a explicar o processo. As funcionárias tiveram uma aula com a médica e a enfermeira do Diogo, via Zoom, para entenderem ainda melhor”, refere Cátia. Fábio demonstra muito apreço pela forma como a escola gere a doença de Diogo. “Nós já vimos casos de escolas que não apoiam, rejeitam até, esses alunos. A escola onde o Diogo anda tem pessoas a cuidar dele sempre”.
Os pais encontram-se em permanente contacto com a escola, especialmente Cátia, uma vez que os patrões lhe abriram as portas para poder sair a qualquer momento do dia. Na escola, a funcionária que está mais com o Diogo, a Paulinha, vai dizendo como é que estão os valores. “E o Diogo adora a escola”, declara Fábio.
“Ele nunca foi discriminado pelos miúdos, pelo contrário. Eles têm um instinto protetor. Às vezes, no ATL, ele tem os valores mais altos e a encarregada Carla pede-lhe para ele correr um bocado e os outros juntam-se todos a ele”, conta Cátia.
No entanto, nem todas as pessoas entendem bem este diagnóstico. “Muitas vezes, quando levo o Diogo à minha mãe, ela reza e pergunta como é que foi isto acontecer”, confessa Fábio. “A minha mãe mentalizou-se que isto podia ser curado. Nós ao início explicamos o que se passava e a minha mãe perguntava “é até quando isso?” e eu sempre disse “para toda a vida”. A minha mãe ainda há pouco tempo voltou a perguntar “ui, vocês ainda têm que o picar?”.
“É preciso que as pessoas percebam que há diabéticos e diabéticos. A diabetes tipo 1 e a diabetes tipo 2 são doenças completamente diferentes e mesmo eu, antes disto, não fazia a mínima ideia. A diabetes tipo 1 não aparece porque se come muitos doces ou por má alimentação, como eu na altura pensei. Há uma predisposição genética e a doença pode manifestar-se a qualquer momento da vida, sendo mais comum manifestar-se em criança”, clarifica Cátia. “O Diogo pode ter uma vida completamente normal, pode comer doces, pode até ser desportista. Isto não tem cura mas ele vai crescer, aprender e adaptar-se”.


