A Cidade de Vapor é uma obra póstuma de Carlos Ruiz Zafón, publicada em novembro de 2020. A coletânea de contos surge como um complemento da saga O Cemitério dos Livros Esquecidos. A obra é simultaneamente um convite para o mundo “zafoniano” e uma despedida do mesmo.

“Sempre invejei essa capacidade que algumas pessoas têm de esquecer. (…) Eu tive o infortúnio de recordar tudo e de tudo, por sua vez, se recordar de mim”, são as palavras introdutórias desta obra. O conjunto de onze contos ecoa a voz de grandes personagens passadas e apresenta-nos a Barcelona “zafoniana, que se torna irrevogavelmente na protagonista deste livro. Tanto com descrições realistas, ou ficcionadas, o cenário espanhol serve, novamente, como base para este mundo onde se dá primazia à literatura e se elogiam os contadores de histórias. Esta homenagem ao autor espanhol guarda em si uma dupla margem de interpretação. Por um lado, complementa e encerra o ciclo da tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos. Por outro, é vista como um estudo prévio, onde o autor ensaiou e desenvolveu as suas personagens antes de se comprometer com elas.

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A Cidade de Vapor é preenchida por uma aura sinistra, misteriosa e obscura, onde as personagens sofrem com destinos injustos e são condenadas à desgraça. As histórias realistas fundem-se com a fantasia, de forma a criar um ambiente muito característico do autor. Nem todos os contos têm algo em comum. Alguns completam narrativas anteriores, ressuscitando enredos e personagens. Outros são histórias íntegras com princípio, meio e fim que relatam as peripécias de novos heróis. O ritmo e a dimensão psicológica também variam: uns adotam uma posição afastada do protagonista e fazem reflexões críticas sobre o mesmo, enquanto outros são mais íntimos e narrados na primeira pessoa. Há episódios com mais ação e dinamismo, e outros cujo foco é o desenvolvimento e análise do caráter psicológico das personagens, tendo, então, um ritmo mais lento. Ainda assim, há a sensação de que as histórias encontram pontos similares e entrelaçam pormenores, de forma a criar uma linha temporal que faz todo o sentido.

A sua expressão literária é carregada de emoções cruas, autênticas e, várias vezes, mágicas. Tem uma carga sombria, enigmática, raramente alegre, mas detentora de uma vivacidade inquestionável. A escrita é extremamente bela e real, mesmo quando o enredo é fantasioso. Zafón comprova, mais uma vez, que é um contador de histórias nato e prende a nossa atenção a cada página. Os contos quase que se criam a si próprios, como se Barcelona nos narrasse pessoalmente todos os segredos das pessoas que passaram nas suas ruas.

A Cidade de Vapor é um livro com um sabor de despedida. Ademais é não só o reconhecimento da carreira do autor espanhol, mas um agradecimento pessoal aos seus leitores. A aura de Carlos Ruiz Zafón é confortável e é, por conseguinte, refletida na sua forma de contar histórias. Assim, somos induzidos a entrar num universo onde tudo é possível. E mesmo quando não tem o cenário mais positivo, ficamos completamente imersos nessa sensação de conforto.