Concluída em 2008, A Viagem do Elefante de José Saramago é mais do que uma história, é um conto. A obra, ambientada em meados do século XVI, permite ao leitor acompanhar a acidentada jornada de Salomão, um elefante asiático enviado por D. João III para a Áustria, e descobrir um poderoso significado por detrás da simplicidade do conto.

Iniciada a sua redação em fevereiro de 2007, A Viagem do Elefante assiste, de certo modo, uma etapa desagradável da biografia de Saramago. Após ter principiado a escrita do livro, Saramago defrontou-se com um grave problema respiratório que o obrigou a suspender a sua atividade. Contudo, e apesar das escassas esperanças que detinha, em fevereiro do ano seguinte, o autor pôde retomar a escrita do livro, tendo-o terminado seis meses depois.

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O conto, assim apelidado pelo próprio autor, localiza-se no século XVI, na capital portuguesa, Lisboa. Representada por uma época monárquica, a obra acompanha o percurso de Salomão, um elefante asiático que se encontrava em propriedade portuguesa, oferecido pelo monarca português D. João III ao arquiduque austríaco Maximiliano II, por ordem do seu casamento com a filha do imperador Carlos V. Marcado por diversas peripécias, a obra permite ao leitor acompanhar a dura travessia de Salomão e Subhro, seu cuidador, de Portugal até Espanha, numa primeira etapa do livro e, posteriormente, de Espanha a Áustria.

A escrita deste conto, como Saramago faz questão de salientar, teve como inspiração um restaurante na Áustria, designado como “O Elefante”. O escritor admite que foi a sua decoração, figurativa da história que mais tarde viria a escrever, que despertou a sua curiosidade para a produção da obra. Contudo, A Viagem do Elefante não é totalmente baseada em factos verídicos. Segundo o próprio escritor, em entrevista à UOL, “os dados históricos (…) são poucos, são muito resumidos”, pelo que acrescenta que foi necessário “inventar”. Assim, A Viagem do Elefante é “o livro que maior parte de invenção tem”.

Redigida com formal simplicidade, o que a distingue da restante bibliografia do autor, Viagem do Elefante representa uma “metáfora da vida humana”, expressão utilizada por Saramago em entrevista ao Jornal de Notícias. Desse modo, em comparação ao elefante também nós, seres humanos, não detemos domínio sobre o nosso destino, como é expresso na citação da obra: “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Saramago faz ainda alusão à morte como o nosso destino final e compara o percurso do elefante com o próprio percurso humano.

Este é, sem sombra de dúvida, um aspeto interessante da obra. Através de um enredo repleto de peripécias, o leitor consegue refletir sobre a sua própria realidade e sobre o mundo que o rodeia. Além disso, à medida que o leitor avança na leitura da obra, surge uma crescente empatia pela personagem de Salomão. Isto confere à obra a capacidade de emocionar e revoltar o leitor. A escrita de Saramago nesta obra permite ao leitor uma leitura e, por sua vez, uma melhor compreensão daquilo que é transmitido.

Ademais, Saramago apresenta uma crítica ao longo de todo o livro. Quer, por um lado, à burocracia do Estado quer, por outro, ao egoísmo do indivíduo em particular. No que à burocracia do Estado refere, o autor reflete a preocupação dos monarcas face à imagem transmitida, através do envio do elefante como presente pelo casamento do arquiduque austríaco. O egoísmo individual é também palco de crítica para o escritor que permite ao leitor refletir sobre a forma como o ser humano se deixa tentar pelos seus próprios interesses, ignorando aqueles que o rodeiam.

Admito que, numa primeira fase, a obra possa parecer desinteressante. Contudo, à medida que se avança é possível descobrir um enredo cativante e significado realista. A leitura desta obra, fez-me despertar para assuntos profundos, tais como o papel do destino na vida humana e a ganância da humanidade. Ainda, à medida que avançava compreendi que sentia uma empatia crescente pela personagem de Salomão, o que me fez experienciar a leitura de uma forma mais intensa.

Narrado ao longo de aproximadamente 250 páginas, A Viagem do Elefante permite ao leitor refletir sobre as fraquezas humanas, a predestinação e a cobiça humana. Através da combinação de personagens reais e fictícias, a obra impõe-se com um conformismo maturo de que “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”.