Após o grande êxito alcançado pelo filme The Incredibles: Os Super-Heróis (2004), Brad Bird apresenta-nos em 2007 mais uma extraordinária animação da Pixar, Ratatui. Nesta longa-metragem vemo-nos envolvidos num emocionante roteiro que conta a história de um rato que sonha vir a ser um chefe de cozinha.

Ratatui relata o percurso de Remy, um rato que coabita com a sua família no sótão da casa de uma senhora idosa. Desde pequeno que possui um olfato e um paladar bastante apurados, os quais o levam a desenvolver uma paixão pela cozinha e pelos sabores e texturas dos alimentos. Ao longo dos seus anos a habitar clandestinamente aquela casa, passa a assistir ao programa de culinária de Gusteau, um famoso chefe de cozinha, que se torna a maior inspiração do pequeno aprendiz.

Durante a sua aventura e após ter-se perdido da sua família, momento em que o roteiro realmente avança, o protagonista de quatro patas é acompanhado pelo falecido chefe Gusteau, que surge como produto da sua imaginação, dando voz à sua consciência. Este leva-o até ao seu restaurante, onde se depara com Linguini, um rapaz desajeitado que se prepara para arruinar uma sopa. Remy ajuda-o, impedindo a sopa de ser servida como um desastre. Depois de ser avistado pelos restantes cozinheiros, mas salvo por Linguini que reconhecera o seu talento, estes fazem um acordo, em que o pequeno chefe poderá realizar os seus desejos de cozinhar, enquanto ajuda o jovem a salvar a sua reputação. Desta forma, surge uma amizade improvável que guiará o seguimento da história.

A narrativa decorre em Paris, na cidade das luzes, onde reside uma atmosfera de romance e esperança. Como já é comum nas obras cinematográficas que a Pixar nos oferece, a premissa principal que envolve o filme sustém a ideia de que podemos ser aquilo que quisermos e que nenhum sonho é impossível ou absurdo. Neste caso, o roteiro gira à volta da ideia de que todos podemos cozinhar, frase que o chefe Gusteau sempre defendeu. Esta ideia foi alimentando o desejo de Remy, o que cria uma nítida ironia. Para além de não serem humanos, os ratos são associados à falta de higiene, acabando por ser dos últimos animais que ansiamos encontrar numa cozinha.

Neste contexto, a animação e o realismo do desenho da obra cinematográfica é fulcral.  Isto é de admirar o extraordinário perfecionismo patente no nosso roedor, que adquire todas as características de um rato normal. Desta forma, criar-se até um efeito de algum desconforto propositado no espetador, ao vê-lo caminhar naturalmente pela cozinha e pelos alimentos. Neste sentido, vamos acabar por gostar de Remy, pela sua personalidade e pelos seus espantosos pratos, e não por ser uma personagem animada para o efeito.

Olhando ainda para este parâmetro, a longa-metragem revela-se uma pura obra de arte. Cada recanto de Paris é retratado com minucia e pormenor, levando-nos quase a esquecer que se trata de uma animação e não de um cenário real. Desde as luzes às ruas tipicamente parisienses até aos próprios pratos que transmitem na totalidade o seu potencial maravilhoso sabor, deixando-nos com água na boca, toda a verdadeira essência do local é perfeitamente delineada.

Aqui, os sons vão entoar em sintonia com as imagens criando uma verdadeira consonância entre os momentos do filme e os ritmos da banda sonora. Deste modo, cria-se um fio condutor favorável à proximidade do espetador com a cena, quase como se mergulhássemos totalmente na animação e em todo o ambiente requintado da cozinha francesa. Aliado a este belíssimo trabalho está Michael Giacchino, responsável por outras magníficas trilhas sonoras de filmes da Pixar e conseguindo sempre retratar perfeitamente o espaço e a intenção do realziador. Exemplo disto é o embalo de uma música francesa que anda de mão-dada com o quotidiano das personagens, ou até mesmo do som de um pão crocante a estalar.

Concluindo, Ratatui é uma obra cinematográfica para todas as idades, encaixando perfeitamente numa tarde em família e para todos aqueles cuja inspiração passa pela cozinha e por todas as maravilhosas junções de especiarias e gostos que dela derivam. Mais uma vez, a Pixar não falha em criar uma longa-metragem que nos deixa de coração cheio.