Um inesperado crossover do mundo do metal chegou aos nossos ouvidos no mês passado. Bloodmoon: I traz-nos a colaboração súbita entre as lendas do metalcore Converge e a metaleira gótica, cantora e compositora Chelsea Wolfe.

Este coletivo já se tinha, de facto, formado anteriormente, mas apenas num ambiente de concerto. Agora trazem os seus “dons da pesada” para o estúdio com uma hora de novo material pronto a ser digerido. Felizmente, o LP não se resume a uma mera amálgama dos estilos respetivos de cada artista. Embora fosse engraçado ouvir Chelsea Wolfe a gritar os pulmões para fora com os clássicos e mortíferos instrumentais de Converge como fundo.

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Bloodmoon: I ouve-se mais como um álbum de doom e sludge metal com várias camadas a dissecar sob uma perspetiva mais gótica. O que faz sentido, tendo em conta o trabalho recente de Chelsea Wolfe em Hiss Spun (2017) e os momentos mais melódicos que Converge tem implementado nos últimos projetos, como The Dusk In Us (2017). De certa forma, consegue-se ver que, de um ponto de vista criativo, estes artistas têm algo em comum.

Converge consegue instrumentalizar o seu som em redor de um género de música mais teatral e sinistro, longe da brutidão do metalcore. Já os vocais fantasmagóricos de Chelsea Wolfe harmonizam todos estes sons. A produção de Kurt Ballous faz com que todos estes elementos funcionem, maioritariamente, de forma perfeita. Bloodmoon I é um álbum denso, repleto de harmonia de guitarra e de vocais, cordas, bateria, entre outros.

O LP oferece um forte ponto de partida. A faixa de abertura “Blood Moon” é um elo perfeito do talento de Converge e Chelsea Wolfe – o piano nebuloso, as harmonias aguçadas de guitarra, os sublimes vocais, os esmagadores riffs e, claro, os gritos. Todos os elementos desta faixa soam, simplesmente, poderosos. Em termos de estrutura, temos um exemplo sublime de criação de tensão e de a soltar, algo necessário considerando os quase oito minutos de duração. Os artistas fazem esta viagem tenebrosa valer a pena, especialmente com o seu fim massivo.

“Viscera of Men” assemelha-se, instrumentalmente, à sua antecessora com mais vocais angelicais da parte de Chelsea. Também temos alguns elementos góticos na parte das melodias, entrelaçadas na parede sonora sufocante que são as guitarras aqui. Após uma
pausa que conta com uma passagem acústica que assombra os ouvintes, toda  a instrumentalização volta com todo o seu esplendor que culmina num final impiedoso e implacável.

A faixa “Coil” pode muito bem ser o take mais cinemático do projeto em si. As secções de cordas e a conjugação dos vocais combinam de um forma que se assemelha a uma soundtrack para um filme de terror. Posso-me estar a repetir, mas importa mesmo sublinhar que a forma como todas as músicas têm acabado até agora tem sido fantástica. Neste caso, temos um acréscimo dos riffs e ritmos gerais que complementam muito bem todo este demorado caminho por onde o coletivo nos arrasta.

“Tongues Playing Dead” é dos momentos mais Converge, por assim dizer, do LP. Os gritos do vocalista da banda, Jacob Bannon, saltam sob riffs fora de controlo. Chega a um ponto em que depois de tanto “saltar”, a faixa quebra e proporciona vocais arrepiantes, dando um 180 pouco depois e acabar com mais um estonteante fim. “Lord of Liars” é capaz de ser a altura mais caótica de Bloodmoon: I. Conta com selvagens passagens de guitarra e ritmos serrilhados em conjugação com vocais fogosos e intensos. Aqui, Converge consegue voltar ao seu som original, como no pináculo do metalcore que foi Jane Doe (2001), ao mesmo tempo que implementa toques mais góticos e melódicos.

Com o facto de este álbum ser tão massivo e pesado em termos de duração, é difícil não apontar certos problemas. Existem momentos que acabam por ser mais aborrecidos em termos de fluidez. Um dos exemplos disto seria “Failure Forever” que se diminui num take simplista de post-metal. Já para não falar de que foi uma das piores prestações em termos líricos e vocais, bem como ao nível dos problemas no mixing nesses mesmos vocais inofensivos que se afogam no meio da instrumentalização. A quarta faixa do LP, “Flower Moon” introduz mais uma melodia sinistra e poderosa, contudo com um nível menor de variedade ao longo dos seus quatro minutos. Há sempre uma criação de tensão constante que fica sem desfecho.

“Scorpion’s Sting” é bem capaz de ser a pior música aqui. Um quase “extra” que acabou por ficar no corte final, com melodias que falham em embelezar e batidas pouco inspiradas e preguiçosas. “Daimon” e “Crimson Stone” fazem um trabalho musical (muito) melhor, embora não ofereçam nada de novo, em termos estilísticos e estéticos, relativamente ao que ouvimos até agora. Pelo menos, Bloodmoon: I acaba como começa, com sérios pontos fortes. “Blood Dawn” é mais uma balada de low-tempo, maioritariamente orquestrada por Chelsea Wolfe, que funciona muito bem como faixa de encerramento, tendo em conta o clímax instrumental criado anteriormente em “Crimson Stone”.

De um ponto de vista geral, Bloodmoon: I, com as suas falhas na tracklist e de certas passagens que acabam por se tornar aborrecidas, é um esforço sólido de uma colaboração de artistas que a maioria das pessoas não estaria à espera. A forma como este álbum é titulado dá a entender que teremos mais material deles no futuro e que o melhor ainda virá (penso eu enquanto faço figas).