No dia 1 de dezembro, recebemos mais um “Spotify Wrapped”. Este resumo do nosso ano ao nível musical é uma experiência reflexiva engraçada. Mas que questões levanta e o que diz sobre nós?

O Spotify é uma plataforma de streaming de áudio que tem vindo a conquistar o mundo e a redefinir a forma como ouvimos música. No final de cada ano, a plataforma presenteia os seus utilizadores com alguns dados que recolheram sobre a sua utilização, no chamado “Spotify Wrapped”. Num formato tipo insta-stories, ficamos a conhecer quais os artistas, músicas, géneros e podcasts que mais tiveram a nossa atenção ao longo do ano.

Muitos utilizadores já aguardam ansiosamente esta altura para poderem partilhar os resultados com amigos e família. Outros, por sua vez, escondem-nos a sete-chaves por vergonha de ter ouvido 640 vezes aquela música que “só ouvem ironicamente” ou por, afinal, serem fãs secretos de um artista com o qual publicamente gozam. Certo é que, entre satisfeitos e insatisfeitos, não se ouve falar de uma questão: a privacidade.

O esquecimento coletivo das questões da privacidade neste caso é algo que, manifestamente, me faz alguma confusão. Não porque eu seja alguém que acha que está constantemente a ser vigiada. Não sou relevante o suficiente ao ponto de me tornar o alvo de um qualquer hacker, nem acho que os dados que consinto partilhar sejam particularmente interessantes ou a sua partilha algo demasiado perigoso. Porém, o tema da privacidade e partilha de dados tem sido uma constante preocupação nos últimos anos. Seria de esperar que, quando uma plataforma nos esfrega na cara o que fizemos ao longo de um ano inteiro, houvesse algum burburinho nesse sentido. Mas não. Então, o que faz com que esta situação seja diferente?

Depois de alguma reflexão, só chego a uma conclusão. O facto de nos darem um conjunto de imagens com um design divertido (simples e às vezes ilegível, mas divertido) é o suficiente para que nos calemos. Os cinco minutos de conversa interessante que o “Spotify Wrapped” proporciona são mais do que suficientes para que qualquer preocupação sobre a privacidade seja esbatida. Com isto não quero dizer que haja necessidade de revolta. Acho, porém, interessante e um quanto definidor da condição humana e da sua capacidade de abstração naquilo que lhe convém. Afinal, tudo o que é preciso para que larguemos de bom grado as nossas opiniões e ideais é dizerem-nos qual a música que ia dar nos opening-credits do filme que é a nossa vida.

Por outro lado, o “Spotify Wrapped” também nos permite conhecer dados sobre os hábitos musicais do país e do mundo. Nisto, destaco a entrada poderosa da música latina que, nos últimos anos, tem vindo a conquistar o terreno que outrora era monopolizado por americanos. Aliás, Bad Bunny foi mesmo o artista mais ouvido em 2021 através da plataforma. O que me preocupa, contudo, já não é tanto a hegemonia americana. Sublinho até que, dentro das indústrias criativas, a música não é a mais atrasada na representatividade feminina (pelo menos nas escolhas do público). Olivia Rodrigo, Taylor Swift, Dua Lipa e Ariana Grande marcam uma forte presença nas playlists. Apesar disto, a diversidade não é total. Onde está a diversidade de géneros musicais?

Ainda esta semana, a Blitz avançou que não existe um único álbum de rock contemporâneo entre os 200 mais vendidos deste ano. No Spotify, a presença do género também se fica por Måneskin, o sucesso italiano. Apesar de assustador, este não é o caso mais grave. Entre os conteúdos mais ouvidos em Portugal e no Mundo, não há um único sinal de jazz. Portanto, e salvo raras exceções, as batidas simples, as letras da tríade amor-drogas-dinheiro e, se possível, passíveis de criar uma dança que acabe no TikTok, são o conjunto de coisas que dita o que globalmente se ouve.

Estes dados são um prenúncio da extinção de alguns géneros. A menos que, por extrema necessidade, eles se reinventem. Hoje em dia, a música é um acessório complementar do que fazemos nas redes sociais. Queremos as músicas que todos elegem como fundo ao ver um pôr-do-sol, as que nos fazem companhia no carro e as que podemos converter em danças suficientemente pouco complexas para que viralizem. Não há mal nenhum nisto. Porém, também devíamos querer música que é difícil de perceber, que nos põe a pensar, que nos faz considerar que ouvi-la é uma atividade em si. Resta-nos esperar que 2022 nos faça mais certos dos nossos ideais, que nos reeduque a não querer só o que é fácil e que nos relembre que a música é uma arte com uma capacidade tremenda de nos enriquecer, se deixarmos que ela nos use tanto quanto a usamos.