Spencer (2021), nome de solteira da Princesa de Gales, não é uma biografia sobre Diana. Trata-se de “uma fábula a partir de uma verdadeira tragédia”, como nos descrevem os primeiros segundos do filme. A partir daqui, penetramos na pele claustrofóbica não de uma princesa, mas de uma mulher perdida no seu próprio palácio.

Nesta longa-metragem, não vemos a tão idolatrada “Princesa do Povo”, que vive um conto de fadas no meio da família real. Pelo contrário, acompanhamos o sufoco, ouvimos de perto a respiração pesada, presenciamos o olhar vazio, esquecido na solidão das grandes paredes que encurralam o seu verdadeiro eu: Spencer. O diretor, Pablo Larraín, posiciona o tabuleiro em cima da mesa e cria o seguinte cenário: 1991, quadra natalícia. A família real reúne-se na propriedade de Sandringam, em Norfolk. E passam-se aqueles que seriam os últimos dias do casamento de Diana e Charles. Esta é a hipotética história de uma mulher acorrentada por convenções e formalismos, adormecida em nostalgia e apressada numa busca incessante pelo autoconhecimento.

Diana não quer ser o rosto da moeda de troca. Quer ser Spencer: mãe; mulher que conduz o seu próprio carro; que chega atrasada aos compromissos; dança pelos corredores de casa e corre como se de um pássaro a voar se tratasse. Porém enquanto não se liberta do um encenado papel de elegância e generosidade, carrega o peso da sua infelicidade às costas. Desta forma, é a partir deste estado de espírito lúgubre que a sequência e montagem do filme se desenrolam. Tudo é repetitivo e rotineiro. As constantes alucinações confundem o espectador e fazem-nos questionar o que é real ou não. O rosto agonizante de Diana surge sempre como foco principal e desorienta-nos.

Não é por acaso que o som e luz dos flashes das câmaras fotográficas são tão atordoantes e desconfortáveis quando surgem os paparazzis. Assim, é tão fácil ganhar vida dentro de Diana, tudo nesta obra cinematográfica passa a ser também sobre o espectador. Por baixo de um guarda-roupa absolutamente radiante esconde-se o sofrimento.

Kristen Stewart emergiu tão profundamente nesta personagem que é quase impossível olhá-la sem ver Lady Di. As expressões, o olhar e os gestos são da mesma pessoa. A atriz não necessita de pronunciar palavras para sentirmos na pele a sua ansiedade e angústia. Ou seja, são o rosto apagado e a postura tensa que contam mil e uma histórias que na longa-metragem não são abordadas.

A trilha sonora de Spencer é de tirar o fôlego. Os temas de Jonny Greenwood causam tensão em todas as cenas. Digo todas porque, de facto, são raros os momentos em que a música não está presente, até mesmo durante diálogos. O silêncio é praticamente inexistente, o que cria um ambiente denso de suspense. Quer seja com a severa e firme melodia das cordas dos violinos, quer com as batidas sedutoras de jazz, a mente fantasiosa de Diana espelha-se em cada música tocada.

Pablo Larraín não pinta sonhos cor-de-rosa e tão pouco é Kristen Stewart quem os representa. Todavia, juntos criam aquela que é, a meu ver, o melhor drama do ano, mesmo que esteja submerso no oposto que os cabelos dourados de Diana simbolizam: a escuridão.