Crónica de uma Morte Anunciada é uma das obras mais conhecidas do colombiano Gabriel García Márquez. A estrutura dos eventos estranha, mas jornalisticamente recriada, juntamente com uma temática interessante e um dom para a escrita inigualável, fazem deste livro uma paragem obrigatória.

Um ano antes de ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, Gabriel García Márquez lançava Crónica de uma Morte Anunciada. Aqui o autor mostrou ao mundo que o interesse de uma estória não tem que depender de um final inesperado. Afinal, logo nas primeiras páginas sabemos quem morreu. Na verdade, toda a gente sabia que Santiago Nassar ia morrer, menos o próprio (e por pouco).

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Portanto, o enredo é o ponto mais forte desta obra. Num livro de mistério, normalmente, esperamos até ao último capítulo para perceber porque é que a vítima morreu, quem o fez e como o fez. Nesta crónica, estes eventos não poderiam ter sido mais anunciados. A forma como García Márquez nos prende durante o tempo todo, mesmo sabendo nós tudo o que tipicamente há para saber num homicídio, tem, portanto, algo de especial.

A estrutura temporal narrativa é, também, particularmente interessante. Através de saltos temporais, os factos vão-se juntando como num puzzle, bem como as perspetivas de quem esteve no momento fatídico. A mistura de escrita jornalística e de um estilo mais oral fazem com que a leitura seja bastante acessível o que, juntamente com a dimensão da obra, a torna de leitura (demasiado) rápida.

Porém, se sabemos quem morreu, quem o matou, como o matou e qual o motivo, o que nos prende? Primeiro, precisamente isto. Não é comum oferecerem-nos esta informação de bandeja e, logo, há algo intrigante nisto que nos faz querer perceber, então, o que vem aí. Em segundo lugar, uma dúvida. Se todos sabemos o que aconteceu e, mesmo antes de acontecer, todos já sabiam, por que é que ninguém o impediu? E é sobre este mote que o autor nos convida a refletir sobre o que é socialmente aceite e sobre a responsabilidade coletiva.

Uma obra com uma estrutura interessante e com um debate bastante atual, ainda que não pelos mesmos motivos. Que o estilo acessível, o autor de renome e o tamanho da obra sejam convidativos para vir refletir sobre os limites do que se aceita na sociedade e a que custo.