Encanto, o mais recente filme da Disney Pixar Studios, foi lançado no dia 25 de novembro em Portugal. A longa-metragem apresenta-nos uma nova história que decorre em terras colombianas que, de forma fascinante, consegue ser familiar e relevante para qualquer um.

A longa-metragem de animação Encanto debruça-se sobre a incrível família Madrigal, família esta que se destaca das demais devido ao milagre que se manifesta sobre a mesma. Esta característica milagrosa foi conseguida através de uma situação tocante e infelizmente muito real. A avó e avô Madrigal e enumeras outras famílias viram-se expulsos do conforto de suas casas após serem atacados por um grupo de arruaceiros que pegaria fogo as suas “memórias”. Isto faz recordar a guerra dos 1000 dias que assombrou a Colômbia de 1899 a 1902. Isto levou a uma fuga forçada das pessoas da aldeia e a consequente morte de Pedro (Avô). Face a esta circunstância de terror e perda, uma luz de esperança veio ao decima em forma de uma vela, revelando-se um milagre e salvando todos os foragidos. Este milagre tronou-se o símbolo da nova comunidade que se formara por detrás das enormes colinas da Colômbia e abençoava a “abuela Madrigal” que agora viúva e com três filhos recém-nascidos para cuidar, ficava instalada numa enorme e estranha casa, fruto do próprio milagre.

Após esta viagem para o passado, somos apresentadas à personagem principal da obra cinematográfica, uma menina com muito carisma chamada Mirabel. Através dela somos introduzidos às personagens que constituem esta excêntrica e numerosa família. Por meio de uma canção animada, Mirabel descreve com enorme paixão todas as capacidades dos seus familiares, os dons dados pelo milagre, e todo o contributo de cada um deles para a comunidade.

Com uma vida aparentemente sem defeitos e exaltada por toda comunidade, o milagre da família Madrigal vê-se atacado, mostrando fragilidades. A partir deste momento somos apresentados gradualmente aos altos e baixos da família, onde é dado uma enorme ênfase às inseguranças de cada um.

Este filme apresenta uma premissa muito interessante sobre as expectativas sociais impostas pelo próprio ceio familiar e as consequências que essa pressão causa nos entes queridos. Trata de forma bastante madura a problemática da exaltação de um indivíduo pelos seus incríveis dons e talentos, traduzindo-se em espectativas sem limites que dificilmente vão ser alcançadas. Algo que podemos ver, por exemplo, nas personagens Luisa e Isabela, que por mais fortes ou perfeitas que sejam, nunca se sentiam suficientemente boas. Neste mesmo cenário é nos apresentada outra perspetiva, a da personagem principal, Mirabel, que comparativamente aos seus outros familiares, não foi abençoada com um dom do milagre. Aqui se desenrola a crítica da ostracização e exclusão daqueles que, no plano familiar, não se sentem integrados e principalmente úteis. A própria personagem diz na música “Waiting on a Miracle” – “I will stand on the side as you shine” (eu vou permanecer de lado enquanto vocês brilham) revelando o enorme peso que a personagem carrega dentro de si.

As músicas em Encanto tem um enorme papel na narrativa, transmitindo de forma excelente tudo o que precisamos saber sobre os personagens. Através das músicas são nos ilustradas as inseguranças e sentimentos da família Madrigal e, apesar de na sua maioria as músicas serem animadas e cheias de vida, a letra que acompanha a melodia revela em grande parte um tom mais pesado e choroso que em muito complementa a lição de moral que o filme quer transmitir.

Desde o início que fomos mimados pelos estúdios Disney com animações de outro mundo e é claro que Encanto não seria privado desse mesmo privilégio. A animação é lindíssima, de cair o queixo com a quantidade de cores e com uma arquitetura esplendidas que enchem as nossas telas e os nossos olhos de espanto. Simplesmente é impressionante a dedicação e a atenção ao pormenor que é colocada. Para um filme de animação é de uma realidade absurda. Em várias cenas de detalhe, é possível ver as pequenas fibras que compõe as roupas das personagens, os pontos que ligam os tecidos e os notórios cabelos encaracolados que neste filme assiste a uma enorme representatividade.

Tocando no tema da representatividade, é de destacar a atenção que cada vez mais é proeminente nos filmes da Disney em querer que as crianças dos nossos dias se possam identificar com personagens que se parecem com elas e a obra cinematográfica é um excelente exemplo disso. A aparição de diferentes tons de peles, narizes proeminentes e diferentes tipos de corpos são um grande passo para novas infâncias mais saudáveis.

Em jeito de conclusão, a longa-metragem Encanto não deve ser um filme para deixar de lado. Conjugada com uma animação incrível e uma importantíssima mensagem que se desenvolve ao longo da produção, a mesma é perfeita para assistir com toda a família, com comédia garantida e diversos personagens cuja personalidade os tornam tão reais e tão próximos do nosso familiar.