A poucos dias de subir a um dos maiores palcos de Nova Iorque, o ComUM foi conhecer o flautista Francisco Barbosa.

Com mais de 20 anos de experiência na música, o amarense atua agora no Carnegie Hall, em Nova Iorque. O concerto estava marcado para dia 27 de janeiro, mas foi adiado para 17 de maio. O flautista que soma vários países no seu currículo, garante que ficou “perplexo”, quando recebeu o convite e leu a mensagem várias vezes para garantir que não se estava “a enganar a ler o inglês.”

Francisco Barbosa afirma que tenta sempre “dar o melhor em todas as situações”, independentemente da sala de espetáculos, com a sua orquestra ou a solo. O seu objetivo é dar a melhor experiência possível à audiência.

O percurso do flautista começou desde cedo por influência familiar. O seu irmão era clarinetista na Banda Filarmónica de Amares, o que o levou a assistir muitas vezes aos ensaios. Também o pai, em tempos, fora clarinetista na banda e assim nasceu o interesse pela música, em especial pelas flautas.

O fascínio foi tanto que, com apenas seis anos de idade, Francisco pediu aos pais para começar a aprender a tocar flauta. Inicialmente, teve aulas com o professor José Matos, que ainda hoje o inspira. Aos 10 anos, entrou no Conservatório de Braga onde permaneceu até ao quinto grau, equivalente ao nono ano. Ainda hoje, Francisco recorda estes tempos como “fantásticos”.

Mesmo com o sucesso que tem vivido, nunca pensou em seguir música a tempo inteiro, “foi uma coisa muito natural”. No entanto, se houve um momento de “clique”, foi quando ingressou a Academia de Música de Guimarães. Nessa época, vários professores lhe disseram que deveria fazer carreira nessa área. Entre eles estava o professor Vítor Matos, que atualmente é diretor da Licenciatura de Música da Universidade do Minho. “Foi ele que me fez pensar mais sobre o assunto.”

Atualmente, a rotina diária do flautista exige muito trabalho e dedicação. “Às vezes uma semana livre, sem concertos, pode ser mais cansativa, porque estou mais tempo a estudar em casa, a praticar.” Recorda um episódio em que ficou mais de 13 horas a tocar, para a gravação de uma orquestra, “quem está nisto é porque realmente tem uma enorme paixão”. Depois de todos os momentos de trabalho e dedicação, quando toca em concertos, vai para se divertir.

A nível pessoal, os seus pais são a sua maior inspiração. Profissionalmente, ou em termos artísticos, “é difícil escolher porque há muita gente que me inspira”, admite. São vários os professores que são fonte de inspiração, tal como Jacques Zoon, que foi seu professor em Madrid. No entanto, salienta o melhor amigo Carlos Ferreira, clarinetista na Orquestra Nacional de França, como grande inspiração, considerando a história do amigo “fascinante”. Para Francisco, a forma como clarinetista, mantem a “mesma humildade e nunca perde o foco, e “extraordinária”.

Durante a pandemia, revela que sofreu bastante psicologicamente, chegou mesmo a desenvolver ansiedade. “Eu estava mal, mas só me apercebi quando comecei a ter manifestações físicas disso”, confessou. No entanto, admite alguma sorte por trabalhar em casa e ter consigo a flauta. Mesmo assim, chegou a um ponto em que começou a “ter dúvidas sobre tudo e a desesperar por não poder tocar em conjunto”.

E os apoios públicos à cultura? Considera-os “vergonhosos”, “Muita gente não recebeu apoio absolutamente nenhum.” O artista sente principalmente pelos técnicos de palco, “alguns viram-se obrigados a “regressar para casa dos pais”.

Para além de tocar flauta, Francisco tem em sua autoria um livro de exercícios, “New Approach to the Art of Flute Playing” (2018). Trata-se de uma compilação de exercícios que colegas e professores lhe passaram, juntamente com alguns originais seus. Este projeto começou a ser pensado em 2010, quando ainda estudava em Lisboa.

Ainda dá masterclasses. “Cada caso é um caso, cada pessoa é um mundo” e o seu objetivo é otimizar as capacidades de cada aluno individualmente. “Não acho normal, que um professor toque e diga a um aluno para imitar”, diz. Acrescenta que procura suscitar nos alunos a vontade de criar novas ideias e explorar o seu lado artístico. Mas não é perfeito, “não é por dar uma masterclass, tocar em determinada orquestra, ou ir tocar no Carnegie Hall, que nunca me engano”. E não gosta que o tratem por professor, “no fundo, somos todos iguais”.

Agora que está no outro lado, lembra-se do antigo professor, Jacques Zoon. “Mesmo sendo um flautista de topo mundial, com uma das carreiras mais brilhantes na atualidade, pedia para o chamarmos por Jacques, e não professor.” O flautista brincou que “se calhar, daqui a trinta anos, com muito cabelo branco” poderá gostar que o chamem professor.

Francisco está neste momento associado à Universidade do Minho com uma investigação relacionada com o trabalho do professor Jacques Zoon, sobre organologia da flauta. O objetivo é “ter algo escrito, em Portugal, sobre o que o professor Jacques Zoon está a fazer neste momento”. Pertence também ao Grupo de Investigação em Estudos Artísticos (GIArtes) da UMinho. Espera um dia mais tarde poder lecionar no ensino superior.

Os planos para o futuro não escasseiam, sendo que o CD a solo “deve estar prestes a sair”. Pretende gravar um CD com os concertos Vivaldi para flauta e, ainda, começar a lecionar com mais frequência. “A música é um constate diálogo, uma constante partilha e o meu objetivo diário é amanhã tocar melhor que hoje.”