O circo é um dos mais primordiais meios de exibição de talento da história. Já no século VI a.C., durante o Império Romano, se viam os primeiros exemplos de circo. Estes foram solidificados pelo Circus Maximus, cujas funções foram mais tarde transferidas para o sempre-icónico Coliseu de Roma. No entanto, mesmo depois da queda do Império Romano, continua a ser possível apontar lugares semelhantes por toda a história e por todo o mundo.

Aparentemente, um sítio cujo principal objetivo é dar palco a talentos, entretenimento e peculiaridades é algo que o ser humano procura. Cultura é algo que o ser humano procura.

Digo que circo é um dos mais primordiais meios de exibição de talento da história, mas também é um dos mais esquecidos. Todos os dias passam centenas de filmes na televisão portuguesa. Todos os dias há centenas de exibições nas salas de espetáculos do país. Em Portugal, existem 30 circos. Seguem a sua natureza nómada e mudam de cidade em cidade, mostrando cultura, arte e o extraordinário.

Quando digo “extraordinário” não é uma hipérbole. Quando mais temos a oportunidade ver dança, controlo de fogo, música, artes equestres, comédia, acrobacias aéreas – tudo no mesmo local? Trata-se de um mundo que põe a variedade nas artes do espetáculo. Mas que é muitas vezes visto como menos, menor, pior.

Levantamos a questão: o que diferencia os talentos vistos num circo daqueles que vemos numa sala de espetáculos estática? O que muda o seu valor?

Por vezes, parece que esta é uma realidade apenas portuguesa. Todos conhecemos o famoso Cirque du Soleil, ou já vimos o Festival Internacional de Circo de Monte-Carlo, que geralmente passa na SIC na altura do Natal. É espetacular, é impressionante e maravilhoso, mas este espanto e admiração não parece existir pelos circos nacionais.

Em 2020, depois de se sentirem ignorados pelo Estado, os circos portugueses criaram a Associação de Defesa das Empresas e Artistas de Circo Portugueses. O principal objetivo foi dar atenção a um problema tão presente cujo resultado é iminente. A regulamentação dos circos em Portugal é muito mais inibidora que o reverso. Sabemos que nem tudo é perfeito, mas o circo, como sempre fez, está a evoluir. Está a fazer o que melhor faz, adaptando-se às novas normas sociais, enquanto rompe com ideais sobre o que é ser artista e o que é arte.

Depois de tantas mudanças e séculos de opressão e resiliência, este meio de expressão sempre sobreviveu. Será o século XXI aquele que vê o fim dos circos? O fim do espetáculo que deu a volta ao mundo? O circo contemporâneo é um palco que merece ser mais valorizado, quer nos média, quer pelas entidades de poder, quer pelo povo, que tende a virar a cara, se a tenda não for bonita.

Como a Britney Spears disse na sua música “Circus”, “há apenas dois tipos de pessoas no mundo; aquelas que entretêm e aquelas que observam”. Vamos ser aqueles que observam, dar valor aos nossos premiados artistas. Vamos ao circo.