O segundo álbum de estúdio de Angèle acaba de chegar ao mercado e traz toda uma sonoridade de excelência. Com este projeto, a cantora belga mostra-se, sem dúvida, como alguém a ter em conta no panorama musical.

Em Portugal, acaba por ser desconhecida por muitos, se mencionada apenas pelo seu nome. Porém, Angèle pode orgulhar-se de ser uma das vozes principais da indústria musical francófona. Com a música “Tout Oblier”, a cantora conseguiu quebrar o recorde de Stromae, ficando, assim, nove semanas em primeiro lugar nos charts belgas. Angèle acabou por se tornar mais popular quando é convidada para participar na música “Fever”, em parceria com Dua Lipa, para o álbum da cantora britânica.

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Apesar das suas músicas, até agora, terem enveredado sempre pelo mesmo estilo musical, em  Nonante Cinq a cantora aventura-se por géneros mais dinâmicos e diversificados. Angèle refere que parte da inspiração para a criação do álbum, foram o término do seu relacionamento e também a pandemia. Tudo isto culminou, não só em um projeto mais maduro, bem como mais melancólico. A capa do álbum demonstra, também, a artista a andar numa montanha russa com diversas versões de si própria ao seu lado, demonstrando, mais uma vez, a sua versatilidade.

A primeira música do álbum intitula-se “Bruxelles je t’aime”. A faixa apresenta-se com um ambiente harmonioso em conformidade com a sua voz melódica e doce. Nesta faixa, Angèle menciona o quanto gosta da sua cidade natal, Bruxelas. Ao mesmo tempo que enaltece, critica também o separatismo linguístico belga, cantando uma frase em flamengo.

Num registo mais animado surge a segunda faixa do álbum, “Libre”. Uma música onde Angèle se demonstra despreocupada e como o título indica, livre. Musicalmente é uma faixa aparentemente “dançável”, onde se destacam graves característicos de um estilo mais indie ou alternativo. Toda a sonoridade da música faz mesmo com que o ouvinte feche os olhos por um momento e se imagine, tal qual a capa do disco, numa montanha-russa de sensações. A cantora refere o quão mudada está em termos de personalidade. Contudo, nunca deixou a sua característica mais importante, ser livre.

No entanto, é a meio do álbum que a cantora presenteia o público com uma faixa mais melancólica e triste. Num momento quase acústico, é trazida apenas a voz de Angèle e um simples piano. Num tom sentimental a cantora aborda a sua “saída do armário” involuntária. Referindo que a sua vida foi exposta pelos “traidores”, Angèle consegue assim transportar as suas emoções para os ouvintes de forma extraordinária.

Saindo totalmente da sua zona de conforto, na faixa “Demons” a cantora aventura-se por um género musical mais ligado ao trap e ao R&B. A colaboração conta com a participação do cantor Damso, que interpreta uma parte de rap. Também esta conta  com uma letra mais sombria, que fala sobre as ansiedades e pesadelos passados da cantora, dizendo que matamos os nossos “demónios interiores” fazendo o que amamos. Não obstante, a cantora não faz transparecer a mensagem da letra principalmente para os não-falantes de francês. É precisamente esta característica que faz de Angèle uma ótima artista, a sua capacidade de trabalhar letras profundas com uma sonoridade completamente distinta.

Nonante-Cinq acaba, então, por ser uma obra-prima, principalmente se tivermos em conta que todo ele é cantando na língua nativa de Angèle. Inegavelmente, a língua francesa melhora qualquer música. Neste álbum fica, também, comprovada a versatilidade da cantora belga, que parece ser excelente em qualquer estilo musical e sobre a qual só ganhamos mais curiosidade e vontade de mais.