Snail Mail é o projeto a solo de indie rock da cantora e compositora Lindsey Jordan. Com apenas 22 anos, a artista conseguiu alcançar sucesso na sua curta carreira. O seu primeiro álbum Lush (2018), um álbum cheio de energia e de emoção crua, caiu a favor dos críticos e dos fãs do género. Um projeto que definitivamente criou grande antecipação para o novo álbum Valentine.

Valentine, embora seja um álbum curto, com apenas cerca de 31 minutos, atinge um maior nível de maturidade. As paletes de rock cru mais simplista de Lush evoluem para algo mais ornamentado, suave e lento instrumentalmente, mas que mantem um apelo para quem é fã de artistas como Mitski ou Phoebe Bridgers.

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Este projeto diferencia-se bastante dos seus antecessores. Contudo, mesmo com esta mudança, Jordan não consegue atingir algo que a distinga de forma relevante. Para além disso, esta nova direção expõe até algumas falhas graves, em termos vocais. Por exemplo, em “Light Blue” e “c. et al.”, faixas bastante íntimas, a artista atinge notas constrangedoras em performances vocais duras e atrapalhadas. A vocalização performativa e angustiada nestes momentos provavelmente resultaria melhor se a entrega fosse mais cativante, no mínimo. O seu estilo vocal, que é totalmente válido como forma de expressão – não me interpretem mal – deixa até algumas das faixas mais “mexidas” monótonas e aborrecidas, especialmente nos refrãos. Isto tudo tira valor às temáticas das letras, que tomam um ângulo de obsessão amorosa por alguém.

Tendo os parágrafos anteriores em conta, não diria que este curto LP não tem os seus momentos de brilho. “Ben Franklin” e “Forever (sailing)” são definitivamente exemplos disso. O que faz estas faixas destacarem-se são os desfiles instrumentais que reforçam as melodias dentro destas músicas. Na primeira temos leads de synths sibilantes no refrão e falsettos de Lindsay, a meio ponto da faixa, que garantem um excelente ritmo do início ao fim. A segunda toma uma abordagem mais relaxada e de low-tempo, com batidas sensuais e guitarras rítmicas que atribuem um elo com a música dos anos 80, em que, por acaso, a artista se encaixa bem.

Apesar desta duas notas positivas, temos muitos mais momentos sem inspiração. “Glory”, como exemplo, é uma mera música inofensiva de indie rock, sem riscos e bastante atonal. Um ponto extra para Lindsay Jordan, que conseguiu acabar esta narrativa de amor perdido que o projeto transmite até agora com as suas últimas duas músicas. Contudo, temos outra vez o problema da voz, anteriormente mencionado, que não ressoa de todo nestes dois momentos referidos.

Realmente, o conceito narrativo de Valentine é o melhor que este tem a seu favor, sendo o ponto mais focado e consistente do álbum. Fora isso, a voz não acertou, a produção é aceitável, mas sem personalidade e o lirismo não desperta nada de relevante ou entusiasmante. Os momentos positivos que realcei, mesmo esses, de um ponto de vista geral do género musical do indie e do pop, são água morna na caldeira.