A reciclagem de modas está presente na maior parte dos hábitos do ser humano e a música não foge à regra. O TikTok tem sido um grande exponenciador deste evento. Mas porque é que isto acontece? Será realmente benéfico para os artistas? Ou a transformação da música para se adaptar à aplicação pode ser desrespeitosa?

O TikTok quase dispensa apresentações. A aplicação chinesa permite vídeos até 180 segundos que têm geralmente música ou áudios de voz como pano de fundo. Num mundo de monotonia e aborrecimento, cortesia da pandemia da Covid-19, a aplicação viu um terreno bastante fértil para se estabelecer. Este boom permitiu lançar variados talentos, principalmente ao nível da dança e música, e, inclusive, já existem grandes celebridades que iniciaram a sua carreira na plataforma. Olhemos, por exemplo, para Charli D’Amelio que, em novembro de 2020, alcançou 100 milhões de seguidores.

Para lá da sua função de dança e lazer, o TikTok tem sido o melhor amigo de novos artistas e dos seus mais recentes lançamentos. Indubitavelmente, a plataforma mudou o panorama musical. Aliás, já existem artistas que têm em conta este fenómeno aquando da criação de músicas. Isto é, na forma como se pode criar uma versão mais curta, dinâmica e passível de uma dança capaz de viralizar. Como o Instagram não vive sem fotografias, o Tiktok não vive sem música. Aliás, 75% dos utilizadores afirmam ter descoberto novas canções em 2021 na plataforma e 175 delas chegaram à lista Billboard Hot 100 dos Estados Unidos.

Contudo, engana-se quem julga que é só de músicas na sua forma mais tradicional que se faz a moda. Afinal, “We Don’t Talk About Bruno” da longa-metragem de animação Encanto (2021) beneficiou bastante do sucesso na aplicação. Esta chegou mesmo a aproximar-se dos calcanhares, ao nível de streams, de grandes bandas sonoras de animação, como é o caso do O Rei Leão (1994). Outro exemplo disto é, também, “All Star” da banda-sonora de Shrek (2001).

Como podemos entender pelo último exemplo, a atualidade não é propriamente um critério definidor do que viraliza. A reciclagem de modas é algo típico da condição humana. Facilmente entendemos isso com o ressurgimento, nos últimos tempos, das roupas associadas aos anos 80 e 2000. Podemos facilmente afirmar que este facto conheceu a indústria musical com uma ajuda catapultada no Tiktok. Nos últimos tempos, os utilizadores têm “reciclado” inúmeros hits que julgávamos já terem desaparecido, alguns há mais de dez anos. “Just the Two of Us” (1980) de Bill Withers e Grover Washington Jr., “Careless Whisper” (1984) de George Michael, “Bills, Bills, Bills” (1999) das Destiny’s Chils são só alguns de uma longa lista.

Porém, este fenómeno levanta algumas questões. A reviralização de músicas antigas é, à primeira vista, bastante benéfico. Os artistas recebem de novo a monetização das suas obras. Contudo, a versão da música que acaba no TikTok não tende a ser a versão original e as alterações feitas quase nunca são feitas com o autor e nem, pelo menos, com o seu consentimento. Há, contudo, casos em que o próprio autor se junta a artistas contemporâneos para fazer uma nova versão, como é o caso de “Cold Heart”, uma adaptação da “Rocket Man”, mas desta vez de uma junção de Elton John e Dua Lipa.

No geral, é justo dizer que esta questão veio criar uma harmonia e uma aproximação na indústria musical. A adaptação dos artistas com mais anos de carreira ao que é passível de reconhecimento nos dias de hoje é uma forma bonita de fortalecer relações entre artistas e entre a comunidade que os idolatra. A cultura musical é várias vezes desvalorizada como forma de conhecimento e de inteligência. É necessário conhecer o que já foi feito, perceber de que forma foi feito e de que temas eram falados por certas gerações. Ainda assim, é igualmente necessário que se dê o devido crédito a quem de direito. Portanto, aquando das adaptações, nunca devemos esquecer de respeitar e reconhecer quem o originou.

Por outro lado, sem este acontecimento, muitos dos jovens de hoje em dia nunca se cruzariam com as músicas em questão. Apesar de não ser a forma tradicional de conhecer música, neste momento, é, de facto, a maior força no sentido de dar a conhecer cultura das décadas de 1980 e 1990.

Por último, tudo isto permite, igualmente, que os artistas com mais anos de carreira, se com a mentalidade certa, continuem a produzir música de grande qualidade e adaptada, de modo a ser apreciada pelos jovens dos dias de hoje. De uma forma ou de outra, com ou sem TikTok, devemos olhar para a música como algo com barreiras muito menos sólidas, com vontade de aprender sobre o que já existiu e de mente aberta para o que vai acontecer.