O evento encerrou a iniciativa "Black History Month".

A Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM) promoveu mais um “Academia à conversa”, na segunda-feira, com o tema “Solidão da mulher negra”. A palestra decorreu em formato online e fechou a série de eventos no âmbito do “Black History Month”.

A sessão contou com a participação de Ana Cláudia Pacheco, professora de Sociologia da Universidade do Estado da Baía e especialização em estudos da mulher negra, afetividade, género, raça e solidão e de Shenia Karlsson, psicóloga clínica com especialização em Estudos Africanos. Também Stephanie Ribeiro, arquiteta, escritora e ativista feminista negra esteve presente. As três oradoras têm desenvolvido diversos projetos ativistas no âmbito do feminismo negro. Chiara Fernandes, aluna de Relações Internacionais na Universidade do Minho, foi a moderadora da conversa.

Shenia Karlsson começou por explicar que a solidão “é algo inerente à condição humana”. Contudo, existem “certos grupos sociais que sofrem processos de desumanização histórica e, consequentemente, diversas exclusões”, esclareceu. A psicóloga revelou que, a nível profissional, direciona o seu trabalho para a mulher negra e sente a frustração e a dor das pacientes. Shenia Karlsson afirmou que é comum a alusão da mulher negra à monoparentalidade, ao celibato, à “solteirice” e à objetificação do corpo. “A mulher negra enfrenta uma crise de alianças desde tenra idade” que se pode iniciar no seio familiar ou na escola, defendeu. A profissional abordou a solidão na infância: “a menina negra enfrenta desde cedo experiências de humilhação, subjugação e, consequentemente, de solidão porque não tem ninguém para a defender”.

Shenia Karlsson explicou ainda que “a experiência de ser negro no mundo é uma coisa muito única”, levando a que possa existir uma invalidação da mesma em, por exemplo, relações inter-raciais. Referiu que as histórias que lhe são transmitidas na clínica são “mensagens muito fortes” e que podem levar a que “as mulheres negras vão incorporando a ideia de que não são merecedoras de viver outras realidades, construir outras experiências”.

Shenia Karlsson tenta, na clínica, criar “um espaço totalmente seguro para estas mulheres colocarem as suas vozes e as suas experiências” e onde serão legitimadas e acolhidas. Mencionou alguns autores que se debruçam sobre o tema abordado, entre os quais Neusa Santos, com a obra “Tornar-se Negro”; e Isildinha Baptista com o livro recém-lançado “A Cor do Inconsciente”. Segundo a profissional, estes autores “fazem-nos pensar num sujeito negro na primeira pessoa, na sua experiência, e colocar o racismo enquanto fonte de adoecimento psíquico”. O objetivo acaba por ser transformar uma solidão dolorosa numa solidão política e consciente, para que possa existir uma autoproteção. Concluiu explicando a necessidade da sociedade estar implicada neste processo, ao admitir que produz as violências referidas e nega a humanidade da mulher negra.

Ana Cláudia Pacheco iniciou a sua apresentação apontando Lélia Gonzalez como sendo a sua primeira grande inspiração. A autora falava já de “representações colonialistas e estigmas socialmente e historicamente produzidos sobre os corpos das mulheres negras, nas quais estas nunca foram vistas como aquelas que deveriam ser amadas”. “Nestas representações, o corpo das mulheres negras era híper sexualizado, mas não eram vistas como capazes de pensar e de sentir.”, explicou a professora.

Abordando o tema da afetividade, Ana Cláudia Pacheco refere que, nas suas pesquisas, constatou que as representações de afetividade para com a mulher negra eram quase inexistentes, estando constantemente vinculadas a um caráter sexual e ao erotismo. “Os nossos afetos e as nossas experiências de solidão estão diretamente relacionadas com o racismo e sexismo”, explicou. “As gerações mais novas, têm reelaborado estas discussões de maneiras muito interessantes. A discussão sobre o racismo; a gordofobia; lesbofobia, bifobia; transfobia, reelaboradas, pela juventude negra, de um ponto de vista da intelectualidade, da arte, da música e do cyber ativismo, sobretudo, colocaram temas que até então não eram discutidos, nem debatidos”, comentou a profissional.

Ao começar o seu discurso, Stephanie Ribeiro esclareceu que se descobriu como feminista negra e tomou consciência da solidão da mulher negra, na faculdade de arquitetura. “No Brasil, é uma faculdade maioritariamente branca. Foi dentro deste contexto que me vi extremamente solitária”. Afirma que “as pessoas não estão acostumadas com a liberdade vinda de mulheres negras. Tendem a entender que as mulheres não têm subjetividade”. Esclareceu que a solidão pode dever-se a isso mesmo – pensar que as mulheres negras não podem querer, desejar, sentir. Disse ainda que este é um tema de extrema importância e que deve ser, também, mais falado dentro dos próprios movimentos sociais negros.

“É como se só pudéssemos ser fortes, como se a fragilidade não pudesse fazer parte da nossa existência.”, esclareceu. “O amor pode ser visto como um espaço onde existe abertura para esta fragilidade e quando isso é negado, parece que se tem sempre de estar numa posição que pode não ser a mais confortável”, parecendo que não há espaço para a vulnerabilidade.

Quando questionadas sobre como mudar esta realidade e como as pessoas não negras podem ajudar neste processo, Shenia Karlsson destaca a necessidade de nomear os fenómenos. Não os ignorar, mas reconhecê-los, sendo essencial que haja um registo destes, para que as situações possam ser mapeadas com uma maior facilidade. Realçou a gravidade do facto de Portugal não o fazer e de não este registo não ser visto como uma necessidade. Ana Cláudia Pacheco refletiu que as redes de apoio são essenciais neste tipo de problemas – “é um passo significativo”. Já Stephanie Ribeiro destaca a necessidade de haver um acesso à psicologia e à psicanálise.