Olhos azuis, cabelo preto fala-nos de personagens anónimas que podiam ser qualquer pessoa, mas não são ninguém. Escrito em 1986, por Marguerite Duras, a obra compacta em si uma realidade artística claustrofóbica que nos deixa, irrevogavelmente, presos num clima desconfortável e melancólico.

“Ela dorme. Ele chora. Ele chora por causa de uma imagem longínqua da noite de verão. Precisa dela, da presença dela no quarto para chorar o estrangeiro, jovem, de olhos azuis cabelo preto”, conta-nos Duras. Partimos de uma narrativa extremamente minimalista, tanto a nível de enredo, espaços e personagens, para se abordar o maior tema existencialista da vida humana – o amor. Ainda assim, nada do que acontece se limita às vulgares e comuns demonstrações de amor. As duas personagens incógnitas não se amam e nem tampouco se conhecem. De facto, são tão desconhecidas entre si como para o leitor. O único fator que as une é a existência do estrangeiro de olhos azuis e cabelo preto.

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A ação concentra-se somente em três espaços: o átrio do hotel, o café e o quarto do protagonista masculino. Poucas são as falas existentes, já que Duras dá primazia às descrições miméticas dos movimentos e estados de espírito. Os dias passam de forma similar e nada de trágico ou relevante acontece. Eles existem sozinhos num quarto, com a nudez dos seus corpos e almas, mas não são amantes. Ela está ali porque possui uma beleza angelical e intocável que o relembra de um estrangeiro de olhos azuis e cabelo preto que ambos viram na praia e por quem se apaixonaram.

A dinâmica entre eles é confusa e ambígua, com interações periódicas que personificam os comportamentos tóxicos e mutuamente abusivos das relações humanas. Existe uma distância evidente entre as personagens, mesmo quando se encontram fechadas no mesmo espaço. Os únicos traços relevantes e descritos são os olhos azuis e cabelo preto que lhes conferem uma aparência um tanto trágica.

Deste modo, Duras permite ao leitor criar e expandir a dimensão psicológica dos protagonistas que nos foram vagamente apresentados. Uma vez que a obra guarda em si um caráter extremamente abstrato e visual. Dá-nos a sensação de que estamos a assistir a um teatro, cujo cenário é um quarto sem mobília, com apenas uma luz forte a incidir sobre um lençol branco. Marguerite Duras observou as interações entre as personagens e escreveu sobre os extensos momentos de silêncio, acabando por descobrir que é possível conterem muito mais do que aparentam. Contudo, o dramatismo e inercia da ação tornam-se exagerados e transmitem-nos a sensação de que estamos presos no mesmo momento obsessivamente.

Para além disso, a obra adquire uma estrutura formal que se assemelha a um texto dramático, mas sem o ser. Porém, também não é um romance convencional. Parece ter sido escrita de forma a dar sugestões aos atores de como devem agir consoante o momento da ação. Por vezes, há excertos indicativos que dirigem o olhar do leitor para certos comportamentos das personagens no espaço. A narrativa bizarra e incomum retrata a apatia, o vazio e a fragilidade que nos é inerente, e são precisamente esses fatores que a tornam tão genial. A forma como foi escrita confere à obra uma aura cinematográfica e ridiculamente pretensiosa. Consequentemente, é um livro enigmático e silencioso, que se comunica com o leitor livremente por meio de tudo e de nada, em simultâneo. A história conta-se sozinha através de um fio invisível de raciocínio que se desenrola de forma invulgar e, todavia, profundamente bela.

Olhos azuis, cabelo preto dá voz à ausência, tanto do individuo como da ação, materializando a poesia do silêncio. Foca-se no retrato fiel das predisposições humanas, como o desespero, os desentendimentos e a procura insaciável por algo que nos transcenda. Assim, é uma história contraditória sobre encontros e desencontros, presenças e ausências, posse e perda, angústia e dor. Marguerite Duras apresenta-nos uma obra que olha para dentro de si e disseca o lado sombrio e misterioso da existência humana, de forma a torná-la, novamente, em arte.