Publicado em junho de 2021, Ás de Espadas é o primeiro livro da escritora britânica Faridah Àbíké-Íyímídé. Neste thriller jovem adulto, a trama explora a vida de Devon e Chiamaka, dois estudantes do ensino secundário que vêem alguns dos seus segredos serem revelados para toda a escola, através de mensagens telefónicas. Sentindo-se ameaçados, os dois protagonistas decidem investigar o autor dessas mensagens, na tentativa de impedir mais exposição indevida.

Nas primeiras páginas, este livro oferece ao leitor aquilo que parece ser apenas um simples drama adolescente. A premissa, bem ao estilo jovem adulto, é cativante. No entanto, numa primeira impressão, prevalece a sensação de que os assuntos abordados são algo superficiais. Não obstante, à medida que os capítulos avançam é percetível um crescimento da densidade do enredo e das problemáticas exploradas.

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A caracterização e o desenvolvimento das personagens constitui um dos pontos fortes deste livro. Os protagonistas, Chiamaka e Devon, além de carismáticos e complexos, têm o poder de despertar um sentimento de identificação no leitor em vários momentos. A interação entre essas duas personalidades tão distintas também enriquece a obra, já que elas vão criando uma cumplicidade progressiva e genuína, apesar das suas diferenças. Mas nem só de protagonistas vive esta história, as personagens secundárias também têm a sua dose de complexidade e oferecem ainda mais consistência à narrativa.

Depois de apresentadas as personagens principais, a obra parte para a criação de um ambiente de suspense que vai escalando gradualmente até à conclusão. A estória também segue essa mesma dinâmica, tornando-se cada vez mais obscura e misteriosa. Além disso, ao longo da trama acontecem várias reviravoltas inesperadas, o que faz da história ainda mais surpreendente. Tudo isto somado, contribui para prender o leitor, já que este fica mais curioso a cada página que lê.

Para além de tudo o que já foi referido, Ás de Espadas tem o poder de criar sentimentos variados no leitor. O sentimento de revolta e impotência prevalece, principalmente quando vemos as personagens serem injustiçadas. As sensações de angústia, sufoco e desespero acompanham-nos durante grande parte da leitura. A desconfiança também é uma sensação bem presente nesta obra, pois devido a certos acontecimentos o leitor sente que não pode confiar em nenhuma personagem, partilhando assim as preocupações dos protagonistas.

Apesar de todos os aspetos positivos deste livro, existem alguns pormenores que podem incomodar durante a leitura. A existência de acontecimentos pouco credíveis durante o desenvolvimento da trama e a conclusão apressada, com várias pontas soltas, que se verifica no final são os principais pontos fracos que consegui identificar. No entanto, estes detalhes menos bem conseguidos não são suficientes para retirar valor à obra.

Em adição, é importante ainda referir uma das principais utilidades da primeira publicação de Faridah Àbíké-Íyímídé. Pois, para além de conseguir um bom equilíbrio entre drama e suspense, esta história ainda integra uma componente complexa no que diz respeito a tópicos mais sérios, atuais e pertinentes. Assuntos como o racismo, a homofobia, o elitismo, a violência e ainda temas relacionados com a saúde mental. Desta forma, este livro acaba por ter um papel importante no que toca à representatividade e à consciencialização do leitor.

Com uma escrita simples e cativante, a leitura torna-se fluída, mas não deixa de ser desconfortável em alguns momentos devido aos temas abordados ao longo da história. Inspirado em obras como Gossip Girl e Get Out, este livro conjuga de uma forma muito satisfatória a imersividade de um drama adolescente com o mistério viciante de um thriller. Ás de Espadas tem ainda o poder de colocar o leitor a pensar em vários problemas da sociedade atual. “As pessoas odeiam que lhes chamem racistas, mais do que odeiam o racismo em si” é uma das passagens que exemplifica o cariz de intervenção deste livro.