A edição deste ano vai decorrer em formato digital.

No IV Encontro de Ciberjornalismo Académico, a decorrer no próximo dia 16 de fevereiro, vai ser abordado o tema “o Jornalismo e a Inclusão”. Nesse sentido, o ComUM recolheu testemunhos e opiniões de profissionais da área com o objetivo de compreender as nuances desta questão. 

“É com o jornalismo que, muitas vezes, as pessoas contactam com realidades que não conhecem ou que conhecem mas estão mais distantes”, declara Teresa Vieira, jornalista da RTP e promotora do 1º encontro LGBTQIA+ – Guia de boas práticas jornalísticas. “O jornalismo é crucial para a construção de cidadãos. Tudo o que é desconhecido pode ser levado a medo e, portanto, o jornalismo é crucial para a noção de inclusão”.

Hélio Carvalho, jornalista no Notícias ao Minuto, refere que a recente polarização do discurso político e social nas redes sociais resultou na desvalorização do jornalismo. “Estou plenamente convicto da ideia de que o jornalismo é o quarto poder”, posição com a qual Ricardo Castro, jornalista do Mais Futebol, concorda. Hélio declara que, enquanto “força democrática para o funcionamento da sociedade”, o jornalismo determina a existência de uma sociedade justa. 

O jornalista no Notícias ao Minuto aponta a representatividade de minorias como a principal forma que o jornalismo tem para combater as desigualdades e contribuir para uma maior inclusão. O profissional acredita que o jornalismo tem a capacidade de “normalizar a presença de pessoas cujo trajeto de vida é bastante discriminado, por todo o tipo de razões”. Ricardo Castro considera que não devem existir barreiras à abordagem desse tipo de assuntos e apela a que se dê voz às minorias.

Hélio remete para o pressuposto de que “o jornalismo não é completamente imparcial”. “Quando comunicamos, colocamos as nossas ideias nos conteúdos que criamos”. Teresa Vieira acredita num “momento de reflexão”. “É uma coisa que, muitas vezes, escapa. É essencial haver um pouco de reflexão, um esforço de todes nós, um momento de pausa”, acrescenta. 

Para tornar as notícias mais inclusivas, Hélio Carvalho acredita que os jornais devem promover a discussão de normas que abarquem a diversidade de pessoas. Nesse sentido, aponta a criação de quotas como a primeira medida a ser tomada. Um dos problemas que constata é a falta de jornalistas não caucasianos. “Eu passei pelo Público e pela Renascença e não me lembro de ver um jornalista negro numa redação”, adiciona.

Hélio contactou a Afrolink – associação que promove a representatividade de pessoas africanas e afrodescendentes residentes em Portugal – e comprovou a inexistência de recolha de dados em redações. Todavia, a associação forneceu o estudo de uma tese de mestrado que comprova que, ao longo de 25 anos (1992 a 2017), apenas 36 das pessoas com presença em câmara eram não caucasianas, das quais 20 trabalhavam na RTP África. Assim, o jornalista adverte para a importância de tornar as redações um espaço confortável para que todas as pessoas se sintam à vontade no local de trabalho. Como jornalista desportivo, Ricardo confessa que “é comumente, ao noticiar futebol praticado por homens, dizer só futebol e, quando por mulheres, muitas vezes designar-se futebol feminino. O desporto não é só para homens”, opina.

Hélio acredita que é “preciso haver um debate para alterar a língua portuguesa”. Teresa Vieira considera a implementação de normas “muito complicada”, uma vez que “o mercado dita muito”. A jornalista conta já ter ouvido, em certos contextos, “que mais valia dizer mal uma palavra do que corretamente, a partir do momento que esse correto não é reconhecido pelo público”. “Acho que isto é bastante ilustrativo desta questão. Não vemos o potencial adaptativo da compreensão do público”, acrescenta.

“Temos uma língua extremamente patriarcal, heteronormativa. Devia haver uma adaptação – a língua é viva e o jornalismo devia ser vivo também e não ficar nas caixas que se pôs a si mesmo” – Teresa Vieira

A adoção de uma linguagem inclusiva é, na perspetiva de Hélio, um “debate complicado de se ter em jornalismo”, sobretudo por se tratar ainda de um tema tabu. É sugerida a elaboração de livros de estilo diferentes para que os jornalistas utilizem em notícias sobre pessoas transgénero ou pessoas não-binárias. Teresa adverte sobre uma forma “muito fácil” de utilizar linguagem neutra – a questão da construção frásica. “Existem formas de se construir frases em que não é preciso utilizar pronomes. Se não é para ir já para a linguagem inclusiva, existem formas de editar sem atribuir género”. 

Persiste ainda a dúvida sobre a utilização de x/e/@ para substituir letras que atribuem género às palavras. Hélio refere que “tecnicamente, ainda está errado, segundo o dicionário da Língua Portuguesa”, por isso, considera importante a abertura de debates de modo a tornar a linguagem mais inclusiva. Ricardo Castro considera que a utilização das alternativas x/e/@ “talvez pudessem ser adotadas em plataformas associadas aos media, como as redes sociais”, mas, linguisticamente, na escrita das notícias, não vê a necessidade “dada a natureza e a riqueza da língua portuguesa”. O jornalista sugere a consulta do “Guia para uma linguagem promotora da igualdade entre mulheres e homens na administração pública“, atualizado em 2021, que acredita ser um bom exemplo do que pode ser feito.

Teresa Vieira aponta para um “problema estrutural”. “Temos uma língua que nos obriga a generalizar o masculino, o que é cerradamente patriarcal. Cabe-nos a nós, jornalistas, tentar desconstruir isso e evoluir”, remata.

A perspetiva dos leitores

Fernando Andrade, de 76 anos, antigo funcionário público nos Serviços Sociais da Universidade do Porto, acredita que tal como não pode haver “segregação com a raça, cor e religião” também não pode haver com “as escolhas destas pessoas”. Apesar de não ter muitos conhecimentos sobre assunto, o leitor admite não se importar com a utilização de @/x/e no jornalismo e que isso não o iria impedir de ler o que normalmente lê. “Até por uma questão de curiosidade e para ficar informado. Perceber o porquê das opções de cada ser humano e como posso ter atitudes corretas para com essas pessoas”, conclui.

Alexandra Guimarães, de 49 anos, administrativa backoffice, crê que pessoas não-binárias e transgéneras não estão bem representadas no jornalismo português. Para a leitora, este é o reflexo de uma sociedade “ainda demasiado conservadora para dar esse passo”. Alexandra Guimarães mostra-se a favor da utilização de uma linguagem mais inclusiva de forma a “incluir mais estas pessoas na sociedade e deixar de as pôr de parte”.

Eduardo Pinto, de 20 anos, estudante de Matemática Aplicada e Computação no Instituto Superior Técnico de Lisboa, considera que pessoas não-binárias e transgéneras não têm muita presença na esfera mediática. Confessa não conhecer exatamente as causas para tal, mas que, caso se justifique com base em algum tipo de preconceito, “algo deve ser feito para que [estas pessoas] também tenham o seu espaço e possam contribuir com ideias e visões para a sociedade”. Eduardo Pinto demonstrou ser contra a linguagem alternativa. O leitor não assume que a utilização do pronome “eles” tenha a intenção de “privilegiar o género masculino”. “É o pronome que temos para designar um grupo de pessoas, sejam binárias ou não-binárias”. Por outro lado, explica que, a nível pessoal, não se opõe à adoção de pronomes não binários com pessoas que assim desejem ser tratadas. Contudo, discorda da mudança oficial a nível linguístico.

Artigo por: Maria Francisca Barros, Maria Carvalho, Marta FerreiraMarta Rodrigues