O mês de janeiro foi o sexto mais seco desde 1931 e o segundo desde 2000.

Como se tem vindo a observar, a chuva este inverno é pouca e, por isso, as barragens estão quase sem água. Resultado disso, foi a decisão do Governo português em suspender a produção de energia hidroelétrica em algumas barragens do país. Volta-se assim a enfrentar um problema do passado mas que, sem se atuar devidamente, pode prolongar-se para o futuro: a seca.

Em conversa com o Público, vários especialistas abordaram o assunto. Para Joaquim Poças Martins, engenheiro especialista em Hidráulica, “as secas têm vindo a ser tratadas muitas vezes como se tratou o terramoto de 1755, como se fosse uma coisa esporádica que não acontece mais”. Concordando com a paragem das barragens para garantir que a população tenha direito a água, o engenheiro acredita que é realmente importante olhar para a escassez da água de um modo diferente.

Do mesmo modo, Maria José Roxo, professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa e especialista em seca e desertificação afirma que a população não aprende “nada com o passado”. Para a especialista, os portugueses continuam a ter “atitudes reativas” e a “reagir ao prejuízo”.

Apesar das barragens ainda garantirem o abastecimento humano, todos os estudos indicam um futuro com cada vez mais calor e menos água. Maria José Roxo alerta assim para a necessidade de tomar medidas de prevenção. Limpar as barragens, rever os sistemas de distribuição de água que estão danificados, aumentar a capacidade de armazenamento de água e pensar numa agricultura de irrigação mais eficiente na utilização de água pois, “os desperdícios são muitos”. Além disso, a professora chama também a atenção individual que cada território tem de ter pois, “uma medida implementada no Norte do país pode ser um desastre brutal no Sul do país e vice-versa.”

Catarina Miranda, coordenadora do projeto Rios Livres do GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente), destaca também esta importância de encontrar formas de promover “uma agricultura mais sustentável e menos dependente de barragens de regadio”. Para a especialista, a construção de mais barragens pode levar ainda a um maior consumo de água. A construção da Barragem do Pisão “é um exemplo claro de como o Governo não está a seguir o caminho correto para a mitigação da seca”. Outra alternativa para o combate à seca intensa pode ser o aumento da eficiência energética nas casas, que pode permitir reduzir o gasto de água nas barragens para a produção de energia.

Segundo Manuela Moreira da Silva, investigadora do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve, com as alterações climáticas, não existe só a diminuição da precipitação média, há também a possibilidade de alguma precipitação intensa. Neste segundo caso, a investigadora manifesta a grande relevância em se começar também “a captar e armazenar esta água da chuva para posterior utilização”.

Por agora, de acordo com o Ministério do Ambiente, não há receio de que faltem recursos para consumo humano. No entanto, as previsões sobre o futuro são menos otimistas. De momento, todo o território português está em seca: 11,5% em seca extrema, 34,2% em seca severa, 53,7% em seca moderada e 0,6% em seca fraca.