Neste que é o seu quarto álbum de estúdio, a cantora norueguesa AURORA dá a conhecer uma nova versão de si e da sua música, com um estilo eletrónico cativante e distinto de trabalhos anteriores. Lançado a 21 de janeiro, The Gods We Can Touch conta com 15 faixas inspiradas na mitologia e na vida pessoal da artista.

Apesar de ter sido lançado apenas este ano, a composição deste disco teve início em 2019. Durante este período de tempo, foram vários os singles que viram a luz do dia, dando pistas de como seria o projeto. Contando já com dez anos de carreira, AURORA impressionou o mundo com a sua voz doce e o seu estilo musical único e inconfundível. Este novo projeto não foi diferente, a começar pelo conceito que lhe deu origem: a ideia de que ninguém é perfeito ou infalível, incluindo os próprios deuses (que são frequentemente venerados enquanto figuras intocáveis e inatingíveis).

observador.pt

Talvez a cantora esteja, na verdade, a falar de si mesma. Por ser uma artista conceituada e com uma carreira sólida, não é de admirar que vários críticos, e até os próprios fãs, a encarem como alguém a quem não são permitidos erros. É precisamente isto que AURORA pretende contrariar neste álbum, assumindo-se como um ser humano como qualquer outro, com todas as suas falhas e emoções.

O tema “Giving In To The Love” parece ir precisamente ao encontro dessa ideia, sobretudo nos versos “I want to live my life, be all of its pages/And underline that I am not an angel”. É ao som de uma bateria eletrónica e de sintetizadores de eco que a artista revela o seu desejo de aproveitar a vida ao máximo, sem se preocupar com o que os outros esperam dela.

A nível musical, este é um disco bastante dinâmico, com composições variadas que transitam entre o folk e o pop. “The Forbidden Fruits Of Eden” é a faixa que abre portas a este disco. Trata-se de uma faixa curta sem qualquer palavra, com um instrumental suave e angelical, que se assemelha muito a um autêntico cântico de deuses. Vale ainda destacar os vocais celestiais tão caraterísticos da cantora, que parecem querer evocar um coro de anjos.

“Heathens” fala sobre a liberdade de vivermos como quisermos, de explorar o mundo e de saborear o que nos rodeia, tal como Eva, figura da Bíblia, fez ao morder o fruto proibido. A nível sonoro, esta composição é bastante idêntica à faixa anterior, com a voz de AURORA em perfeita sintonia com o som dos sintetizadores.

A canção “Cure For Me” é uma balada particularmente interessante, uma vez que tem a comunidade LGBTQ+ como inspiração. Através de versos como “I don’t need a cure for me” e “I don’t like the tension, the misapprehensions/About our nature in love”, a artista realça a importância de nos aceitarmos tal como somos e de respeitarmos os outros de igual forma. Uma mensagem poderosa como esta, aliada a um instrumental pop viciante, só poderia dar bom resultado, sendo já um verdadeiro fenómeno no TikTok.

É no tema sedutor “You Keep Me Crawling” que os vocais de AURORA alcançam a intensidade e harmonia a que estamos tão familiarizados. Liricamente, o tema parece tanto descrever uma relação amorosa como a relação do ser humano com a religião, o que é, no mínimo, genial.

Vale ainda destacar algumas faixas que parecem aludir a temas de discos anteriores inspirados na Mãe Natureza. Em “Exhale Inhale”, os versos falam sobre poluição no ar, ao som de um instrumental sereno construído por sintetizadores e delicados acordes de viola. Já a canção “Temporary High” surpreende com elementos sonoros que evocam o estilo musical dos anos 80, enquanto “Dangerous Thing” surge com uma balada quase medieval.

Apesar de os temas serem, quase na sua totalidade, idênticos no que toca aos vocais da artista, é inegável que AURORA realmente se desafiou a explorar sons diferentes, para aliar à sua lírica inteligente, o que resulta num álbum inovador e bem conseguido. Assim, a sua voz, sempre angelical, vai adquirindo tons diferentes à medida que o instrumental se apresenta mais suave ou mais intenso. The Gods We Can Touch contém faixas um pouco mais enérgicas que outras, o que permite aos ouvintes optar por uma balada dançante ou por algo mais sereno.

Com este disco, a artista parece querer semear uma certa paz interior em quem o ouve, já que praticamente todos os temas transmitem uma serenidade e calma capazes de nos abstrair de tudo o resto à nossa volta. Para além disso, contém mensagens que valem sempre a pena ser reforçadas, incentivando a autoaceitação e a liberdade para sermos quem somos, sem nos preocuparmos com a opinião de terceiros.