Relatos de maus-tratos continuam a persistir.

Na última quinta-feira, dia 10 de fevereiro, a HeForShe da Universidade do Minho, promoveu uma sessão digital de debate sobre a violência obstétrica. O evento, moderado pela professora Fátima Martins, contou com a participação de Mário Santos, doula, da enfermeira Liliana Carvalho e da professora Virgínia Henriques.

É difícil compreender como é que um espaço destinado a cuidar pode provocar intervenções de violência. A verdade é que, segundo Virgínia Henriques, ainda se praticam muitos “atos de atrocidade”. De acordo com uma notícia avançada pelo jornal Público, Portugal apresenta taxas de violência obstétrica acima da média europeia. Embora esteja agora na área do ensino, a docente conta que já exerceu na área da saúde e relembra um dos procedimentos atuais recorrentes no auxílio do parto.

A manobra de Kristeller, criada em 1867, consiste na aplicação de pressão na parte superior do útero com o objetivo de facilitar a saída do bebé. “É violentíssima e provoca dor, humilhação e um traumatismo que poderá durar toda a vida”, constata Virgínia Henriques. Mesmo que de forma inconsciente e acreditando estar a tomar as melhores decisões, alguns profissionais de saúde “não facilitam o acompanhamento do parceiro e invadem a privacidade”, acrescenta a oradora.

Na perspetiva de Liliana Carvalho, trabalhadora no serviço de obstetrícia no Hospital de Braga, “ainda que por vezes de forma inconsciente, a violência obstétrica continua-se a praticar”. Na prática clínica, salienta que o facto de alguns profissionais não se colocarem no lugar do outro e não permitirem criar um ambiente empático é um dos maiores problemas. “Para mim a base de tudo é a empatia”, declara.

Para Mário Santos, falar em violência obstétrica “é muito mais que desrespeito e abuso” e afirma que “um dos maiores problemas é a normalização, enquanto sociedade e profissionais de saúde”. Segundo acredita, é preciso compreender primeiro o que é para cada casal uma experiência de parto “perfeito”, não permitindo à mulher tolerar determinadas práticas. A realidade é que muitas mães passam por situações de violência, sem identificar uma violação dos seus direitos. Todos os atos violentos, físicos ou verbais, influenciam a mulher, “não só a querer ser mãe, como a viver a sua vida sexual e até na sua ligação com o filho”, defende Liliana Carvalho.

Mário Santos acredita que o papel dos profissionais de saúde passa, primeiramente, por incluir a voz das mulheres e saber ouvi-las. “Precisamos de aprender com as experiências das pessoas, que a mulher nos confronte com a sua experiência negativa”, afirma. “Muitas vezes não temos as lentes colocadas e não vemos violência. Precisamos de permitir usar essas lentes”, observa Mário.

Neste sentido, segundo defendem os oradores, é fundamental que se entenda o projeto de parto esperado pelo casal, mas para tal é preciso dar conhecimento à sociedade. Para Liliana Carvalho, é vital que se altere o pensamento de dependência face à medicalização do parto. “A mulher é capaz, ela tem as ferramentas todas”. Para a profissional de saúde, o papel dos profissionais é somente assistir ao parto. Ainda que o corpo de profissionais das instituições tenha de repensar neste problema, a mudança tem também de passar pela mulher.

Em 2014, a Organização Mundial de Saúde alertou para o facto de muitas mulheres sofrerem de abuso, desrespeito e maus-tratos durante o parto, nas instituições de saúde, violando o direito das mulheres ao cuidado respeitoso. Embora exista uma crescente preocupação em lutar e pôr fim a esta situação, muitas vezes ocorre de forma camuflada.