Através de sensações intensas, crueldade e transparência a segunda temporada de Euphoria desenrolou-se. A nova temporada arrancou na HBO no dia 9 de janeiro e reúne 8 episódios recheados de momentos distintos, marcados pela complexidade e profundidade de temáticas abordadas. Poucas são as palavras com capacidade para descrever justamente a obra de arte de Sam Levinson.

Mais uma vez, é, sobretudo, no ensino secundário que o enredo é desenvolvido. A série foca-se em Rue (Zendaya), viciada em drogas e com sérios danos mentais. No entanto, todas as personagens têm uma história e ganham holofotes. Tanto na primeira como na segunda temporada, estão presentes temas pesados, mas, principalmente, temas reais como a droga, a sexualidade, a procura por aceitação, relacionamentos tóxicos, violência e problemas familiares. Euphoria transcende tudo aquilo que até agora tinha sido feito pela realidade transmitida por cada personagem. Isto é, não há personagens boas ou más. Existem seres humanos na sua essência mortal, com defeitos e qualidades, resultantes do passado e do contexto em que se encontram.

A segunda temporada oferece aos espectadores uma aproximação e um conhecimento significativo de cada uma das personagens e do seu contexto social. Dá continuidade e respostas a temáticas iniciadas anteriormente, com um aumento notável da violência física e psicológica. Embora ofusque determinadas personagens, por comparação, dá enfoque a outras, como a Lexi (Maude Apatow), o Cal (Eric Dane) e o Fezco (Angus Cloud). Distingue-se da primeira temporada pelo peso das sensações provocadas, quer pelas situações em si, quer pelo uso acertado do silêncio que se destaca fortemente em todos os episódios.  Assim, com menos diálogo, é com grande sensibilidade emocional que o realizador demonstra claramente as consequências das escolhas e dos passados dessas personagens. Desta forma, nunca distorce a realidade e, pelo contrário, mostra a dureza e a crueldade da mesma, bem como a dificuldade de lidar com ela.

Cinematograficamente, esta temporada revela-se extremamente cuidada. Apresenta tons mais quentes, com maiores contrastes e uso de sombras. Ademais, é de destacar os usos de câmara feito pelo diretor, que coloca o espectador como participante da série. Levinson usa habilidades e conhecimentos utilizados da melhor forma, dado que se adapta perfeitamente a cada momento do episódio. Em Euphoria, tudo tem um propósito. As cores, os planos, os cenários e a música contém sempre mensagens importantes para a compreensão exata daquilo que é uma personagem, relação ou situação. Mesmo a roupa e as maquilhagens contam histórias, sendo que nesta temporada são mais densas e sombrias, acompanhando, deste modo, o enredo.

Aquilo que maior destaque dá à série é a interpretação feita pelos atores. Desta forma, é de referir, principalmente, os papéis de Sydney Sweeney e de Zendaya. A Cassie (Sydney Sweeney) representa uma das personagens mais complexas a nível emotivo, com picos de sentimentos e com uma grande necessidade de aprovação masculina. A atriz parece carregar todos os acontecimentos da vida de Cassie, entregando-se totalmente a todos os momentos. Zendaya, tal como na primeira temporada, está na pele de uma pessoa totalmente desregulada a nível mental, repleta de cicatrizes emocionais e de dores profundas. A atriz transforma-se completamente na personagem e faz dela realidade. Por exemplo, o caso do episódio cinco, onde o espectador se depara com 20 minutos de uma discussão violenta, sombria e pesada. Assim, são expostos, sem filtros, todos os problemas e consequências do uso de drogas e de doenças mentais.

Euphoria é um aconchego para todos aqueles que passam e vivem situações e quotidianos tão complexos e, ao mesmo tempo, falados de forma tão errada. A série constitui um abre olhos social fascinante, por isso mesmo. Além de se revelar um conforto para alguns, é sinónimo de aprendizagem e reflexão para outros. No fundo, não existe nada mais especial do que abordar temáticas tão pesadas com tanta sensibilidade e profundidade, sem nunca perder o realismo.