A Filha da Floresta foi o primeiro romance de fantasia histórica de Juliet Marillier, publicado pela primeira vez em 1999. A obra literária conta a história de uma pequena rapariga, que deve cumprir uma tarefa dolorosa para salvar os seus irmãos de uma maldição.

Sorcha, personagem principal da narrativa, faz parte de uma família composta por seis irmãos. Devido à morte da sua mãe e à presença do seu pai, Lord Colum, na guerra, a jovem acaba por ser criada pelos seus irmãos. O nome da trilogia, Sevenwaters, da qual o livro faz parte, surge do facto de serem sete filhos tal como as sete correntes. Eventualmente, o pai de Sorcha casa novamente e a sua madrasta traz-lhe algumas dificuldades. Assim, a jovem é obrigada a ter de cumprir uma tarefa terrível, relacionada com urtigas, para conseguir quebrar a maldição.

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Apesar de interessante, esta é uma história cuja própria premissa se torna mais horrível quanto mais se pensa nela, especialmente para qualquer pessoa que já tenha tido alguma experiência com urtigas. Com isto, compreendo o porquê de ter inspirado este primeiro romance de Marillier. O mais surpreendente é a forma como a escritora conseguiu expandir o conto de fadas, mantendo-se ao mesmo tempo comparativamente fiel a ele.

Esta expansão tornasse óbvia imediatamente pelo facto de a história ser sobre as florestas da Irlanda, algo que não se assemelha às terras medievais com princesas e castelos a que estamos acostumados. O presente de Marillier retrata um mundo que é tão real quanto misterioso. Isto leva a que o leitor sinta uma rara experiência de percecionar e ouvir na perfeição aquilo que é descrito ao longo das páginas, podendo quase viver a história que lhe é contada.

O mesmo se aplica aos aspetos de fantasia do livro. Embora as pessoas da feira sejam sempre uma presença nestes contos, é raro ver uma sociedade “normal” a viver em conjunto com estas pessoas. De facto, é interessante que em alguns livros, nebulosos e inquestionáveis, a magia parece uma fraqueza. No entanto, A Filha da Floresta, com a mistura do mundo com o espiritual e com a boa escrita de Marillier, a magia torna-se forte.

Para além disto, a política da narrativa tem poucas divergências e observamos um mundo onde um lorde é tanto um planeador agrícola, líder comunitário e magistrado como comandante ou governante. É notória a forma sensível como Juliet pinta o conflito entre os britânicos e os nativos irlandeses, tal como o cristianismo e as crenças pagãs, não sendo nenhum dos lados “certo”, ou “errado”, mas sim ambos os lados simplesmente, incluindo uma variedade de pessoas, algumas melhores, outras piores.

Observamos ainda uma admirável subtileza quanto ao papel da mulher numa sociedade da época. Por um lado, existe uma descrição das competências atribuídas às mulheres, desde as artes têxteis à recolha de alimentos na floresta, e especialmente o conhecimento que a Sorcha tem sobre o cultivo de ervas e a obstetrícia, entre outras. Porém, por outro lado, a escritora não esconde o facto de ser um mundo em que os homens detêm a autoridade.

A única inconveniência da obra talvez tenha sido o facto de uma vez ultrapassado o clímax, o livro ainda ter três horas para ser desenvolvido. Enquanto a linha de enredo romântica de Sorcha ainda precisava de ser resolvida no final, notou-se um arraste grave dos acontecimentos, com algumas personagens de outro modo benevolentes a comportarem-se de uma forma incaracteristicamente desleal.

Com isso dito, apesar de um ritmo por vezes lento e de um final talvez puxado, A Filha da Floresta é nada menos do que uma obra fantástica. Com uma descrição deslumbrante, construção mundial espantosa e personagens subtis, este livro é bastante recomendável. Independentemente das preferências de fantasia por parte do leitor, Juliet Marillier garante uma viagem que vale a pena ser feita.