O último romance de José Rodrigues dos Santos foi lançado no final do ano passado e o seu percurso tem sido marcado simultaneamente por aplausos e indignações. Colocar os animais ao nível do ser humano, dotando-os de consciência e sensibilidade, não é uma opção literária que agrade a todas as pessoas. No entanto, não deixa de ser um tema que merece atenção, tendo encontrado neste livro uma forma de chegar ao grande público.

A lisboeta Maria Flor trabalhava há mais de um ano com o cientista Noé Vandenbosch num projeto chamado “Jardim dos Animais com Alma”, quando recebe a chamada de que este foi encontrado morto no tanque da nova orca do Oceanário de Lisboa. Um cartão com a frase “a verdade esconde-se atrás da queda do homem” acompanha o corpo, levando as autoridades a considerar a hipótese de homicídio. Maria Flor é a principal suspeita. Percebendo que se trata de uma cilada, Flor foge com a intenção de descobrir a verdade e de se livrar da acusação. No entanto, à medida que segue as pistas, descobre um lado desconcertante de Noé e do seu trabalho.

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Desta forma, percebe que o Jardim dos Animais com Alma não era apenas um santuário em que Noé falava com o papagaio Carioca e a chimpanzé Guida em inglês, mas sim o tubo de ensaio de uma ordem esotérica designada Rosacruz. O seu objetivo era aproximar toda a Criação da divindade. Noé procurava demonstrar que a inteligência não é propriedade humana, sendo os animais até mais inteligentes do que o Homo Sapiens.

Assim, como não podia deixar de ser, a narrativa é envolta em mistério, charadas, símbolos antigos e ordens esotéricas que ninguém conhece, mas que aparentemente estão em todo o lado. E é mais uma vez Tomás Noronha, o marido de Flor e a versão portuguesa do Robert Langdom de Dan Brown, que nos faz o favor de explicar os enigmas e de revelar à sua esposa a verdade por trás do jardim.

Como o passado é intercalado com o presente, ficamos a conhecer cada vez mais as ideias de Noé à medida que narrativa avança. E é através do cientista belga que percebemos que o que diz o senso comum e a teoria behavorista é falacioso. Os animais não meras máquinas orgânicas, que respondem a estímulos numa lógica pré-determinada. Ou seja, são capazes de comunicar, de sentir, de pensar e até de serem justos e empáticos. Tudo o que achamos que pertence única e exclusivamente à esfera humanoide é, na realidade, algo comum a todos os animais. Os papagaios, os ratos, os chimpanzés e até os porcos são capazes de raciocinar, de fazer deduções e de ajudar outros animais. Desta forma, é difícil de acreditar e quase que parece inventado, mas José Rodrigues dos Santos limitou-se a expor os resultados de toda a sua investigação científica num livro coerente e de fácil leitura. Uma forma simples, mas completa de mostrar à sociedade o que não quer ver.

Apesar das boas intenções do autor e da sua inegável capacidade de escrever frases com sentido, falta algo neste romance. O leitor prende-se à página pela novidade dos factos apresentados e não pela sinuosidade da narrativa ficcional. A escrita é quase mecânica, como se tratasse de um texto expositivo de um estudante qualquer que não fez as citações como mandam as regras. Falta profundidade nas personagens e autenticidade na forma como estas se relacionam. Assim, O Jardim dos Animais com Alma é um romance interessante, mas não excecional.